domingo, 3 de janeiro de 2021

Ainda sobre Cobra Kai...


Por volta de 2018, escrevi alguns comentários a respeito da primeira temporada do seriado Cobra Kai. Contudo até então não mais tocara no assunto, assim se deu porque julguei a segunda temporada um lixo, sobrecarregada de draminhas adolescentes imbecis e acompanhada de lacração, a qual em tese a série estaria se propondo a criticar. A esta altura abandonei a série. Mas, por influência de alguns amigos que muito elogiaram a terceira temporada insisti. E de fato a terceira temporada é incontestavelmente melhor que a segunda, e traz consigo elementos positivos, mas ainda assim, demonstra as limitações do entretenimento norte americano. 

Entre os pontos positivos, cito um aprofundamento da história do sensei Kreese, mostrando como o passado e a traumática experiência na Guerra do Vietnã moldaram sua personalidade e a filosofia Cobra Kai (filosofia esta que ''funciona''. A justiça está reservada ao pós-vida e ao fim dos tempos, na história, infelizmente, vence não o lado bom, mas o mais forte). Todavia já na segunda temporada e de forma mais explícita na terceira, a inserção de Kreese na trama tira a tensão do antagonismo Johnny x Daniel que forjam uma aliança clichê que tornarei a comentar logo mais. 

Outro ponto interessante foi a crise na vida de Daniel, suas dificuldades com a empresa, seu fracasso quanto a lidar com o retorno Cobra Kai, que o levaram ao Okinawa, numa espécie de retiro espiritual em busca de orientação. Ao voltar para o vilarejo onde nasceu o senhor Miyagi, cenário do filme Karatê Kid 2, há um forte contraste: a outrora pequena e humilde aldeiazinha tradicional tornou-se um grande centro comercial. Tal cena me pareceu expressar um desencanto do Ocidente com relação ao Japão, antes visto como um povo extremamente tradicional, acabaram se remoldar a estrutura capitalista ocidental. Aliás, nos dois primeiros filmes da série Karatê Kid o encanto com o Japão é muito maior, enquanto em Cobra Kai a estética oriental é bem marginal. De todo modo, em Okinawa Daniel encontra uma antiga namorada, bem como se reconcilia com antigos inimigos (que lhe ensinam golpes secretos, o velho clichê dos pontos de pressão) e encontra as respostas que procurava e a solução para reerguer sua empresa. A coisa se dá de um modo tão fácil e conveniente que chega a irritar. Volto a falar disso logo mais também.

Um pouco da crítica a cultura moderna, presente na primeira temporada permanece, mas de forma bem mais branda, quase como um bait. A crítica de Daniel aos numerosos relacionamentos de sua filha, que no período de um ano teve quatro namoros com três sujeitos diferentes (tá rodada!) é tão leve e sútil que não tem o mínimo impacto. Há também o fato de que Johnny só se relaciona com mães solteiras, sem que isso gere a mínima reflexão a respeito do problema de famílias desestruturadas e da irresponsabilidade feminina. Aliás, antes o contrário, a personagem Ali se apresenta como uma mulher ''bem resolvida'', responsável e inteligente, apesar de ter estragado sua vida familiar e a vida de seus dois filhos com um divórcio sem qualquer razão plausível. O politicamente incorreto da série cada vez mais parece tão somente uma isca para atrair um público um pouco mais amplo, que de fato uma crítica corajosa e forte ao cultura contemporânea.

A temporada termina com uma conveniente união entre Johnny e Daniel contra Kreese. O argumento da síntese conservadora de matriz hegeliana, da união entre opostos contra um mal maior. De minha parte desejava (embora fosse óbvio que o roteiro encaminhar-se-ia para tal conclusão) que isso não ocorresse, mas antes que Johnny lidasse com Kreese sozinho, e depois resolvesse suas pendências com Daniel. Esperava ver de fato uma crítica mais forte, e uma maior valorização do arquétipo do anti-heroi, da alta macheza, do que esse "amansar da fera". Também gostaria que Daniel não tivesse conseguido salvar a empresa, mas antes tivesse de lidar com o fracasso financeiro. Isso traria mais drama e realismo a trama, longe da imagem bonitinha de que tudo se resolve magicamente, ou que sempre podemos entrar em um acordo. Todavia, tal qual Karatê Kid, o seriado Cobra Kai escolhe ir por vias fáceis de um moralismo infantil.

E para fechar com chave de ouro temos que a próxima temporada não será mais feita pelo Youtube, mas pela Netflix, ou seja, deve vir lixo por aí. Se vier, não esperem uma próxima review.

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