sábado, 23 de janeiro de 2021

Pedalar entre ruínas


Agitação desesperada, é assim que se pode descrever a conduta de muitos. Se nos últimos dias você visitou alguma rede social já deve ter notado como está todo mundo doido. As pessoas falam, falam, escrevem textões, brigam, discutem, procuram desorganizadamente se organizar, há que trocar o ministro, o presidente, o papa, há que fazer apostolado por tal remédio, não há que brigar com os negacionistas, temos de denunciar a fraude, defender a ciência, lutar por isso, por aquilo etc etc... Há uma consciência de que a civilização ocidental está morrendo, que chegou ao fim a era da hegemonia americana, o centro do mundo começa a se deslocar para China. Também se nota como a cultura está cada vez mais fragmentada, cada qual é um mundo a parte, o padrão de normativo, a oficialidade, enfim a tal da opinião pública deixa de ser um todo coeso para se transmutar numa em miríades de tribos ideológicas. Isso sem falar do estresse de estar confinado em casa, da peste ceifando vidas pelo mundo, e da crise econômica que se segue. Certo, há motivos para se estar agitado. Mas de quê adianta? 

A atual situação histórica é o acúmulo de séculos errantes e uma pequena parcela do castigo merecido por tão numerosos pecados. Não é algo que se resolva em uma geração, tão pouco de forma simples, na solução padrão de uma troca de cargos. Além de que. um simples cidadão não tem meios de ação para promover mudanças de grande magnitude. A internet trouxe a muitos uma ilusão de onipotência, cada qual se julga muito importante, alguém capaz de mudar os destinos do mundo, um cruzado pela civilização ocidental, um profeta a denunciar a crise eclesial, a voz da revolução (ou contrarrevolução) desde suas redes sociais... E algum efeito isso produziu?

Não é que eu esteja advogando por uma total apatia e indiferença ante o século, mas tão somente convidando o leitor a ter um pouco de calma. Por que não toma um cházinho? Se o mundo está em ruínas, podemos pedalar por entre elas... A ação só tem sentido quando produz um resultado efetivo, do contrário é apenas inútil dispêndio de energia. Se não há nada que possamos fazer por hora, ao menos podemos nos divertir.

A religião cristã sempre foi muito pessimista com relação ao mundo. Esta é uma terra de exílio, marcada pelo pecado, dominada pelo Diabo. Muitos católicos viveram sobre violentas perseguições sem esperança alguma na esfera temporal, sua esperança estava no céu. E por isso eram felizes. Felizes porque amavam a Cristo, e assim apesar da desordem do entorno, eram capaz de manter a paz em seu interior. 

Que o mundo vá mal, isso faz parte do roteiro. Façamos o que estiver ao nosso alcance para ajudar uns aos outros, mas não pensemos poder fugir da cruz e do sofrimento, da colheita daquilo que fora semeado. Precisamos aceitar o sofrimento, lidar com ele com resignação calma e dignidade. Essa agitação inútil, essas esperanças desesperadas, esse auto engano, essa crença sem base de que por algum milagre político tudo se resolve, a agitação frenética para tentar produzir essa mágica, bem isso não vai funcionar...

Creio que este é um tempo oportuno para perdermos nossas ilusões mundanas, sem contudo cair na armadilha da tristeza. O pedalar entre ruínas é apenas uma forma criativa de expressar essa estabilidade cristã. Se os primeiros mártires foram capazes de manifestar alegria quando jogados aos leões, porque não poderíamos nós sorrir e pedalar por entre as ruínas do mundo moderno?


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