domingo, 28 de fevereiro de 2021

A Dupla Santidade do Coração de Jesus

Em que consiste a santidade do Coração de Jesus?
A santidade adorável d'este divino Coração consiste no horror que tem ao peccado, e no zelo que emprega para o destruir.

Qual é a dupla santidade do Coração de Jesus?
O meu divino Mestre, diz a Bemaventurada, fez-me ver nele duas santidades : Uma d'amor e outra de justiça, ambas rigorosíssimas, cada qual de sua maneira.

Em que consiste a santidade de justiça do Sagrado Coração de Jesus?
Esta santidade inspira ao Coração de Jesus um odio irreconciliavel ao peccado, que deseja ardentemente destruir, e um afastamento absoluto do peccador impenitente, que, apesar de tudo, desejar salvar. Tal santidade produz neste Coração Sagrado um combate mysterioso entre o amor divino, que chama o peccador, e o odio, que repelle o impenitente endurecido. Foi esta justiça que, opprimindo dolorosamente o Coração de Jesus, o fez entrar em agonia, e derramar o seu sangue em suor copioso no jardim de Gethsemani . Ha-de ser deante d'esta terrível santidade que os reprobos hão de apparecer ; á sua vista encher-se-hão de terror, exclamando: Montanhas caí sobre nós.

Em que consiste a santidade de amor do Coração de Jesus?
A santidade d'amor abraza o Coracão de Jesus num zelo infinito pela gloria de seu Pae, e pela santificação das almas. Era ella que inspirava a Nosso Senhor Jesus Christo um desejo ardentíssimo de se offerecer como victima no Calvario, e o leva a tratar com santo rigor os seus maiores amigos, para os purificar das suas menores faltas, e torna-los assim mais perfeitos. E' tambem esta santidade que alimenta o fogo do purgatorio.

Poderão os servos do Sagrado Coração participar d'esta dupla santidade?
As almas justas são chamadas a ter parte durante a vida nesta dupla santidade do Coração de Jesus, e a soffrer os seus salutares rigores, não só para santificação propria, mas tambem para destruir o peccado no mundo, para salvação dos pecadores, e para livramento das almas do Purgatorio. Esta participação é a origem das satisfações superabundantes da SS. Virgem e dos santos.

O meu divino mestre, diz a Bemaventurada, mostrou-me que estas duas santidades se exerceriam continuamente em mim.

Quaes são os effeitos que a santidade de justiça produz nos peccadores?
A santidade de justiça, diz a Bemaventurada, é terrível e medonha : esmaga os peccadores impenitentes que desprezaram todos os meios de salvação, que Deus lhes offereceu. Esta santidade de justiça lança-os fóra do Coração de Jesus para os entregar a si proprios e torna-los insensíveis á sua propria desgraça. Esta santidade não pode soffrer a mais pequena mancha numa alma que trata com Deus, e mil vezes anniquilaria o peccador, se a misericordia se não opposesse. Um dia disse-me o meu divino Mestre : «Esta santidade de justiça mette-se de permeio entre o peccado e a minha misericordia. E, uma vez que a minha santidade cáia sobre o peccador, é impossivel que se reconheça; a sua consciencia fica privada do remorso, o entendimento sem luz o coração sem contrição; por fim morre na sua cegueira.

Quaes são os effeitos que a santidade produz nas alma dos justos?
Nosso Senhor, diz a Bemaventurada, deu-me a conhecer, que a santidade de justiça me faria sentir o peso dos seus justos castigos, fazendo-me softrer pelos peccadores. Na verdade, coisa alguma me custava tanto como esta santidade de Nosso Senhor, sobre tudo quando Elle queria abandonar alguma alma que lhe era consagrada. Fazia-me então soffrer tão dolorosamente, que não ha supplicio nesta vida que se lhe possa comparar; para o evitar, ter-me-hia lançado sem difficuldades numa fornalha ardente.

Por mais que dissesse, nunca poderia dar uma idéa sequer do que soffri por causa d'esta santidade de justiça. Um dia o meu Salvador fez-me ouvir estas palavras:

A minha justiça está irritada e disposta a castigar os peccadores, se elles não fizerem penitecia. Quero dar te um signal que te faça conhecer, quando a minha justiça estiver resolvida a dar os seus golpes sobre essas cabeças criminosas: sabe-lo-has, quado te sentires esmagada pela minha santidade. Será apenas uma pequena amostra de como as almas justas a supportam, com medo de que ela cáia sobre os peccadores.

Quaes são os effeitos da santi1lade de amor nas almas dos justos e porque são elles chamados a levar o peso d'esta santidade?
A santidade de amor não é menos dolorosa que a santidade de justiça, diz a Bemaventurada; mas os seus sofrimentos são para reparar d'algum modo a ingratidão de tantos corações, que não pagam com amor o amor ardentíssimo do Coração de Jesus no SS. Sacramento. Um dos soffrimentos que causa é não se poder sofrer mais ; inspira desejos ta, vehementes de amar a Deus e de o ver amado, que para o conseguir não ha tormento que a alma deixe de acceitar de boa vontade. Esta santidade de amor excitou quatro desejos no meu coração; desejo de amar, desejo de commungar, desejo de soffrer e desejo de morrer. D'esta forma sentia eu sempre novas consolações no meio dos açoites e dos espinhos, com que o meu divino Salvador me tinha presa á cruz. Quanto mais eu soffria, maior era a satisfação que dava a esta santidade de amor. 

Nosso Senhor deu-me tambem a conhecer que: para alliviar as almas santas, que estão detidas no purgatório, esta santidade de amor me faria sofrer uma espécie de purgaório mui doloroso.

Quaes devem ser os sentimentos d'uma alma verdadeiramente christã, quando se vê manchada por alguma falta ainda que leve?
Sirva-nos de lição o exemplo da Beata Margarida Maria:Ah ! exclama ella, se soubesseis que tormento soffre a minha alma, vendo-se tão manchada deante da santidade do meu Deus ! As' vezes parece-me que esta santidade vai exterminar-me da face da terra, como a uma criminosa ! Comtudo, esta disposição, ainda que frequente, não é muito demorada. Nesses momentos o meu recurso é prostrar-me deante do meu Deus, cujo poder soberano assim me anniquila no mais profundo abysmo do meu nada, e de forma tal que me parece impossível tornar a sair d'elle; choro e gemo sem cessar para lhe pedir misericordia, e que afaste de mim os castigos da sua justa colera.

Quaes devem ser os sentimentosdos peccadores, pensando na santidade de justiça de Deus?
A Bemaventurada Margarida Maria no-lo ensina com o seu exemplo: Esta santidade de justiça, exclama ella, é tão terrível para o peccador que, se a santidade de amor e a misericordia infinita e amorosa do meu Deus me não sustentassem na mesma proporção que a sua justiça me fazia sentir o peso dos seus rigores, nem por um instante eu os poderia supportar. Muitas vezes esta santidade me põe ás portas da morte, e então sinto-me tão cansada que mal posso dar um passo.

Uma noite, debaixo da impressão d' esta santidade de justiça, senti-me opprimida por uma affiicção tão violenta, que mal me podia arrastar, e teria succumbido sob este horrível peso, se o meu divino Mestre me não fortalecesse. Devorava-me um fogo ardentíssimo, que penetrava até ao mais intimo do meu ser. O meu tormento era semelhante ao das almas do purgatorio, que sofrem por se verem privadas do soberano Bem.

Um dia senti a santidade do meu Deus imprimir-se tão extraordinariamente em mim, que me parecia não poder resistir, e só me era possível proferir estas palavras :Santidade do meu Deus, como sois terrível para as almas criminosas»! ou então: O' meu Deus, sustentae a minha fraqueza, para que eu não succumba debaixo de tão grande peso»!

Outra vez a santidade de justiça fez-me entrever o inferno, ou antes, o purgatorio, porque eu não tinha perdido o desejo de amar a Deus. Esta graça era me concedida de tempos a tempos para participar dos soffrimentos de Nosso Senhor no jardim das Oliveiras, e então dizia com o meu Salvador: Não se faça a minha vontade, ó meu Deus, mas sim a vossa!

O Coração de Jesus segundo a Doutrina da Beata Margarida Maria Alacoque; p. 43-48.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Ladainha para tempos de Peste

Antífona: Sal. 43, 26. Levantai-vos, Senhor, ajudai-nos e livrai-nos por vosso santo nome.

Nós, ó Deus, ouvimos com os nossos próprios ouvidos, nossos pais o contaram para nós.
Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo.
Assim como era no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém.

Antífona: Levantai-vos, Senhor, ajudai-nos e livrai-nos por vosso santo nome.

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Pai Celeste que sois Deus, tende piedade de nós.
Filho Redentor do mundo que sois Deus,
Espírito Santo que sois Deus,
Santíssima Trindade, que sois um só Deus,

Santa Maria, rogai por nós.

Santa Mãe de Deus,
Santa Virgem das Virgens,
São Miguel,
São Gabriel,
São Rafael,
Todos os santos Anjos e Arcanjos,
Todas as santas Ordens dos Espíritos bem-aventurados,
São João Batista,
São José,
Todos os santos Patriarcas e Profetas,
São Pedro,
São Paulo,
Santo André,
São Tiago,
São João,
São Tomé,
São Tiago,
São Filipe,
São Bartolomeu,
São Mateus,
São Simão,
São Tadeus,
São Matias,
São Barnabé,
São Lucas,
São Marcos,
Todos os Santos Apóstolos e Evangelistas,
Todos os Santos discípulos do Senhor,
Todos os santos Inocentes,
Santo Estevão,
São Lourenço,
São Vicente,
Santos Fabiano e Sebastião,
Santos João e Paulo,
Santos Cosme e Damião,
Santos Gervásio e Protásio,
Todos os santos Mártires,
São Silvestre,
São Gregório,
Santo Ambrósio,
Santo Agostinho,
São Jerônimo,
São Martinho,
São Nicolau,
Todos os santos Pontífices e Confessores,
Todos os santos Doutores,
Santo Antônio,
São Bento,
São Bernardo,
São Domingos,
São Francisco,
Todos os santos Sacerdotes e Levitas,
Todos os santos Monges e Eremitas,
Santa Maria Madalena,
Santa Águeda,
Santa Luzia,
Santa Inês,
Santa Cecília,
Santa Catarina,
Santa Anastásia,
Todas as santas Virgens e Viúvas,

Todos os Santos e Santas de Deus, intercedei por nós

Sede-nos propício, perdoai- nos, Senhor.
Sede-nos propício, ouvi-nos, Senhor.

De todo o mal, livrai-nos, Senhor.
De todo pecado,
De vossa ira,
Da morte imprevista e repentina,
Das insídias do demônio,
Da ira, do ódio e de toda má vontade,
Do espírito de impureza,
Dos raios e da tempestade,
Do flagelo dos terremotos,

Da peste, da fome e da guerra,
Da peste, da fome e da guerra,

Da morte eterna,

Pelo Mistério de vossa santa Encarnação,
Por vosso Advento,
Por vosso Nascimento,
Por vosso Batismo e santo jejum,
Por vossa Cruz e Paixão,
Por vossa Morte e Sepultura, livrai-nos, Senhor.
Por vossa santa Ressurreição,
Por vossa admirável Ascensão,
Pela vinda do Espírito Santo Consolador,
No dia do juízo,

Nós os pecadores, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Para que nos perdoeis,
Para que nos favoreçais,
Para que Vos digneis conduzir-nos a uma verdadeira penitência,
Para que Vos digneis governar e conservar a vossa santa Igreja,
Para que Vos digneis conservar na santa religião o Sumo Pontífice e todas as ordens da hierarquia eclesiástica,
Para que Vos digneis humilhar os inimigos da santa Igreja,
Para que Vos digneis conceder a paz e a verdadeira concórdia aos reis e príncipes cristãos,
Para que Vos digneis conceder a paz e a união a todo o povo cristão,
Para que Vos digneis reconduzir todos os transviados à unidade da Igreja, e iluminar todos os infiéis com a luz do Evangelho,
Para que Vos digneis confortar-nos e conservar-nos em vosso santo serviço,
Para que Vos digneis elevar as nossas almas às aspirações celestes,
Para que Vos digneis retribuir a todos os nossos benfeitores os sempiternos bens,
Para que livreis as nossas almas da condenação eterna e as dos nossos irmãos, parentes e benfeitores,
Para que Vos digneis dar e conservar os frutos da terra,
Para que Vos digneis conceder o descanso eterno a todos os fiéis defuntos,

Para que Vos digneis liberar-nos do flagelo da peste,
Para que Vos digneis liberar-nos do flagelo da peste,

Para que Vos digneis atender-nos,

Filho de Deus, nós Vos rogamos, ouvi-nos.

Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus, que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós

Senhor, tende piedade de nós.

Pai Nosso... 

V. E não nos deixeis cair em tentação.
R. Mas, livrai-nos do mal.

Senhor, em vossa cólera não me repreendais, em vosso furor não me castigueis.
Tende piedade de mim, Senhor, porque desfaleço; sarai-me, pois sinto abalados os meus osso.
Minha alma está muito perturbada; vós, porém, Senhor, até quando?...
Voltai, Senhor, livrai minha alma; salvai-me, pela vossa bondade.
Porque no seio da morte não há quem de vós se lembre; quem vos glorificará na habitação dos mortos
Eu me esgoto gemendo; todas as noites banho de pranto minha cama, com lágrimas inundo o meu leito.
De amargura meus olhos se turvam, esmorecem por causa dos que me oprimem.
Apartai-vos de mim, vós todos que praticais o mal, porque o Senhor atendeu às minhas lágrimas.
O Senhor escutou a minha oração, o Senhor acolheu a minha súplica.
Que todos os meus inimigos sejam envergonhados e aterrados; recuem imediatamente, cobertos de confusão!

Glória ao Pai e ao Filho e ao Espírito Santo,
Assim como era, no princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos. Amém

V. Ó Senhor, não nos trate segundo os nossos pecados.
R. Nem nos recompense segundo as nossas iniquidades.
V. Ajudai-nos, ó Deus da nossa salvação.
R. E para glória do vosso nome, livrai-nos, ó Senhor.
V. Não te lembres, Senhor, das nossas iniquidades passadas.
R. Venham ao nosso encontro depressa as tuas misericórdias, porque muito pobres temo-nos feito.
V. Rogai por nós, São Sebastião,
R. Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
V. Ó Senhor, ouvi a minha oração.
R. E o meu clamor vem a ti.
V. O Senhor esteja convosco.
R. E com teu espírito.

Oremos,

Ouvi-nos Deus Salvador nosso, e pela intercessão da Gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus, do mártir São Sebastião, e de todos os santos; livrai o vosso povo do pavor dos vossos castigos, dando-lhe a confiança na vossa imensa misericórdia.

Recebei, Senhor, propício nossas súplicas, e curai as enfermidades das almas e dos corpos, para que, tendo obtido a cura, nos alegremos sempre em vossa bênção.

Suplicamos-vos, Senhor, afastai propício a morte e a epidemia, a fim de que nossos corações mortais reconheçam que sofrem os flagelos da vossa ira, e que vós também sois quem faz eles cessarem pela vossa grande misericórdia. Por Jesus Cristo, Senhor nosso.
R. Amém.

Referências:

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Os perigos do romantismo

Emma lera Paul e Virginie e sonhara com a casinha de bambu, com o negro Domingo, com o cachorro Fiel, mas, sobretudo, com a doce amizade de algum bom irmãozinho que colhesse frutos vermelhos para ela nas árvores grandes, mais altas que campanários, ou que corresse de pés descalços pela areia trazendo-lhe um ninho de passarinho.

Quando completou treze anos, o pai levou-a à cidade, para colocá-la no convento. Hospedaram-se em uma estalagem no bairro de Saint-Gervais, onde receberam a ceia em pratos pintados com representações da história da senhorita de la Vallière. As explicações das legendas, cortadas aqui e ali pelos arranhões de facas, glorificavam a religião, as delicadezas do coração e as pompas da Corte. 

Longe de se aborrecer no convento, durante os primeiros tempos ela divertiu-se na companhia das freiras, que, para entretê-la, conduziam-na à capela, na qual se penetrava pelo refeitório, depois de um corredor comprido. Ela brincava muito pouco durante os recreios, compreendia bem o catequismo e era sempre a primeira a responder às questões difíceis do senhor vigário. Vivendo então sem nunca sair da atmosfera morna das aulas e entre aquelas mulheres de tez branca, de terço e cruz de cobre, entorpeciase suavemente com o langor místico que os perfumes do altar exalam, com o frescor da pia de água benta e com o brilho dos círios. Em vez de acompanhar a missa, contemplava em seu livro as ilustrações religiosas bordejadas de azul, e adorava a ovelha doente, o Sagrado Coração trespassado de flechas agudas ou o pobre Jesus que tropeça em sua cruz. Tentou, por mortificação, ficar um dia inteiro sem comer. Procurava em sua mente alguma promessa para cumprir.

Quando se confessava, inventava pecadinhos só para ficar mais tempo ajoelhada à sombra, mãos unidas, rosto encostado na grade, ouvindo o murmurar do padre. As comparações de noivo, esposo, amante celeste e marido eterno que se repetiam nos sermões provocam-lhe no fundo da alma doçuras inesperadas.

À noite, antes da oração, faziam uma leitura religiosa na sala de estudos. Durante a semana, liam algum resumo de história sagrada ou as Conferências do abade Frayssinous, e, nos domingos, passagens do Gênio do cristianismo, por distração. Como escutava, nas primeiras vezes, as lamentações sonoras das melancolias românticas repetindo-se em todos os ecos da terra e da eternidade! Se sua infância houvesse transcorrido nos fundos de uma loja de um bairro comercial, ela talvez se sentisse aberta às invasões líricas da natureza, que, em geral, chegam a nós somente através das traduções dos escritores. Mas ela conhecia bem demais o campo; conhecia o balido dos rebanhos, os laticínios, os arados. Acostumada à calma, atraía-se, inversamente, pelos aspectos acidentados. Gostava do mar apenas pelas tempestades e da vegetação apenas quando esta se encontrava dispersa em ruínas. Precisava extrair das coisas uma espécie de lucro pessoal e rejeitava, considerando inútil, tudo aquilo que não contribuísse à conservação imediata de seu coração – por ser de temperamento mais sentimental do que artístico, buscava emoções e não paisagens.

No convento, havia uma solteirona que vinha todos os meses, durante oito dias, para trabalhar na rouparia. Protegida pelo arcebispo por pertencer a uma antiga família de fidalgos arruinados durante a Revolução, comia à mesa das freiras no refeitório e trocava algumas palavras com elas depois da refeição, antes de subir e retomar o trabalho. Freqüentemente, as alunas internas escapavam da sala de estudos para conversar com ela. Sabia de cor canções galantes do século passado, que cantava à meia-voz, enquanto sua agulha avançava. Contava histórias, anunciava as novidades, ia à cidade cumprir as incumbências de que a encarregavam e emprestava às alunas maiores, às escondidas, romances que sempre levava nos bolsos do avental e cujos longos capítulos ela própria devorava, nos intervalos de seu trabalho. Tudo eram amores, amantes, damas perseguidas desmaiando nos pavilhões solitários, postilhões assassinados em todos os albergues, cavalos mortos em todas as páginas, florestas escuras, agitações no coração, sermões, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis em bosques, homens bravos como leões, brandos como cordeiros, virtuosos como ninguém, sempre bem-vestidos e que choram como viúvas. Durante seis meses, aos quinze anos, Emma sujou suas mãos com a poeira dos velhos gabinetes de leitura. Com Walter Scott, mais tarde, encantou-se com as coisas históricas, sonhou com arcas, salas de guarda e menestréis. Teria apreciado viver em algum velho solar, como aquelas castelãs de corpetes compridos, que, sob os ornamentos das ogivas, passavam seus dias com o cotovelo apoiado sobre o peitoril e o queixo na mão, esperando vir do fundo do campo um cavaleiro com uma pluma branca, galopando sobre um cavalo negro. Nessa época, cultuara Mary Stuart e venerara com entusiasmo mulheres ilustradas ou infelizes. Joana d’Arc, Heloísa, Agnès Sorel, a bela Ferronnière e Clémence Isaure; para ela, destacavam-se como cometas na imensidão tenebrosa da história, onde se sobressaíam ainda, aqui e ali, mas mais perdidos na sombra e sem nenhuma relação entre si, São Luís com seu carvalho, Bayard moribundo, algumas ferocidades de Luís XI, algo de São Bartolomeu, o penacho do Bearnês, e sempre a lembrança dos pratos pintados, nos quais Luís XIV era elogiado. 

Na aula de música, as romanças que cantava só falavam de anjinhos com asas de ouro, madonas, lagunas, gondoleiros, composições pacíficas que lhe deixavam entrever, através da tolice do estilo e das imprudências das notas, a atraente fantasmagoria das realidades sentimentais. Algumas de suas camaradas traziam para o convento os keepsakes que haviam recebido de Ano-Novo. Era preciso escondê-los, como era complicado! Liam-nos nos dormitórios. Manipulando delicadamente suas belas encadernações de cetim, Emma concentrava seu olhar fascinado no nome dos autores desconhecidos que haviam assinado, geralmente condes ou viscondes, ao final de suas composições. 

Estremecia ao suspender com um sopro o papel de seda das gravuras, que se levantava meio dobrado e caía suavemente sobre a página. Era um rapaz de capa curta que, por trás da balaustrada de uma sacada, abraçava uma moça de vestido branco, com uma bolsinha presa à cintura; ou então os retratos anônimos das ladies inglesas com cachos louros, que, debaixo do chapéu de palha redondo, olhavam-na com seus enormes olhos claros. Viam-se algumas esparramadas em carruagens que deslizavam por parques, onde um galgo saltitava à frente da atrelagem conduzida a trote por dois pequenos postilhões de calções brancos. Outras, em devaneio no sofá, ao lado de um bilhete aberto, contemplavam a lua pela janela entreaberta, semicoberta por um véu negro. As ingênuas, com uma lágrima sobre a face, afligiam uma rolinha pelas grades de uma gaiola gótica, ou, sorrindo, com a cabeça inclinada sobre o ombro, desfolhavam uma margarida com os dedos pontudos, arrebitados como sapatos de bico revirado. E vós, sultões com longos cachimbos, também estais ali, pasmados debaixo de caramanchões, nos braços de bailarinas, infiéis, sabres turcos, barretes gregos, e vós, sobretudo, paisagens macilentas das regiões ditirâmbicas, que freqüentemente nos mostrais ao mesmo tempo palmeiras, pinheiros, tigres à direita, um leão à esquerda, minaretes tártaros no horizonte, no primeiro plano, ruínas romanas, a seguir, camelos acocorados – tudo isso enquadrado por uma floresta virgem bem cuidada e com um enorme raio de sol perpendicular tremulando na água, onde se destacam em manchas brancas, sobre um fundo cinzento, cisnes nadando.

E o abajur do candeeiro, pendurado na parede sobre a cabeça de Emma, iluminava todos aqueles quadros do mundo que desfilavam diante dela uns atrás dos outros, no silêncio do dormitório e ao som longínquo de algum fiacre retardatário que ainda percorria os bulevares.

Quando a sua mãe morreu, ela chorou muito nos primeiros dias. Mandou fazer um quadro fúnebre com os cabelos da falecida, e, em uma carta que enviara a Bertaux, toda cheia de reflexões tristes sobre a vida, pedia que a enterrassem mais tarde no mesmo lugar. O velhote achou que ela estivesse doente e foi vê-la. Emma ficou intimamente satisfeita por ter obtido na primeira tentativa aquele raro ideal das existências pálidas, aonde os corações medíocres nunca conseguem chegar. Deixou-se então levar pelos meandros lamartinianos, ouviu as harpas nos lagos, todos os cantos de cisnes moribundos, todas as quedas de folhas, as virgens puras que subiam ao céu e a voz do Eterno ecoando nos vales. Aborreceu-se, mas não quis reconhecê-lo, continuou por costume, a seguir, por vaidade e ao final ficou surpresa de sentir-se apaziguada e sem mais tristezas no coração do que rugas na testa.

As religiosas, que haviam tão bem previsto a sua vocação, notaram com grande surpresa que a senhorita Rouault parecia escapar a seus cuidados. Com efeito, elas tanto lhe prodigaram ofícios, retiros, novenas e sermões, tão bem lhe pregaram o respeito que se deve aos santos e aos mártires e tantos bons conselhos lhe deram para a modéstia do corpo e a salvação de sua alma que ela fez como os cavalos puxados pelas rédeas: empacou, de repente, e o freio saiu-lhe dos dentes. Aquele espírito positivo em meio a seus entusiasmos, que amara a igreja pelas flores, a música pelas letras de romanças e a literatura pelas excitações passionais, insurgia-se diante dos mistérios da fé, do mesmo modo que se irritava contra a disciplina, que era algo antipático à sua constituição. Quando seu pai a retirou do internato, ninguém ficou aborrecido por vê-la partir. A madre superiora achava inclusive que ela se tornara, nos últimos tempos, pouco reverente em relação à comunidade. 

Emma, de volta a casa, divertiu-se com o comando dos criados, a seguir, passou a sentir aversão pelo campo e saudade do convento. Quando Charles veio a Bertaux pela primeira vez, ela considerava-se muito desiludida, não tendo mais nada a aprender, não tendo mais nada para sentir. 

Mas a ansiedade em relação a um novo estado, ou talvez a irritação causada pela presença daquele homem, bastara-lhe para que acreditasse que possuiria, enfim, aquela paixão maravilhosa que até então era tida como um pássaro grande de plumagem rosa planando no esplendor dos céus poéticos – e ela não podia imaginar agora que aquela calma em que vivia fosse a felicidade com que sonhara.

- Gustav Flaubert. Madame Bovary; Primeira Parte, Cap. VI.

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Dropando a Black Pill


É engraçado como muitos apresentam uma visão totalmente romântica e irrealista do Brasil. Afim de quebrar tal ilusão fantasiosa, e ''dropar a blackpill'' - como dizem por aí - reúno alguns dados não muito animadores...

Infraestrutura
Moral Familiar
Economia
Educação


Segurança Pública

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Figuras de Linguagem


6ª Semana Comum | Terça-feira
Primeira Leitura (Gn 6,5-8; 7,1-5.10)
Salmo Responsorial (Sl 28)
Evangelho (Mc 8,14-21)

O Evangelho de hoje é engraçado. Nosso Senhor Jesus Cristo alertava, usando uma linguagem metafórica, a respeito do "fermento de Herodes e dos fariseus"; os apóstolos, antes discutindo por causa de pão, interpretaram a frase em sentido literal. Sabe aquele negócio de "figuras de linguagem" que você aprende nas aulas de literatura no colegial? Pois é, devia revisar isso, afim de evitar problemas de interpretação, não só da Sagrada Estrutura, como também do comunicação diária no âmbito mais simples e pessoal. Como você já está por aqui mesmo, segue um resuminho:

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

A religião romântica e o abandono do temor


5ª Semana Comum | Nossa Senhora de Lourdes | Quinta-feira
Primeira Leitura (Gn 2,18-25)
Salmo Responsorial (Sl 127)
Evangelho (Mc 7,24-30)

1. A mulher foi criada como adjutório do homem. A família existe para geração e educação dos filhos, bem como para o auxílio mútuo. O casal, pois. se torna uma só carne... Eis óbvio, mas tantas pessoas tem uma visão tão errada da família. Há quem transforme o auxílio mútuo num culto, quem por suas ações colocam o sentido da família num culto a mulher, que se torna um ídolo vaidoso, a espera de sacrifícios e oferendas. E quantos idiotas não se prestam ao papel de ''fiéis devotos''. E nesse culto ao feminino, sacrificam-se os filhos e até mesmo a indissolubilidade do matrimônio, pois quando o devoto falha em seus deveres, é tempo da moça trocá-lo por alguém mais adequado. Tudo feito em nome do ''amor''. Que o leitor  não seja. pois, um dos tolos adeptos da religião romântica que distorce o real sentido da instituição familiar. 

2. <Bemaventurados todos aquelles, que temem o Senhor, e que andão pelos seus caminhos. (Sl 127,1)> - diz salmista. A CNBB trocou a letra e maculou o espírito. Canta-se hoje na missa: ''Felizes todos os que respeitam o Senhor''. Trocou-se o temor ante a majestade divina por um respeito vago. Mas, sem esse temor até mesmo o respeito se dilui... É pela falta de temor que o clero protagoniza atos tão escandalosos, como a atual campanha da iniquidade ecumênica. É pela ausência de temor que também este se torna tão estúpido, sendo tão facilmente manipulado pelos revolucionários marcusianos, pois o temor do Senhor é o princípio de toda a sabedoria.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Educação do Imaginário? Por que raios vocês ainda estão brigando por isso?

Não é de hoje que a tal da "Educação do Imaginário" tem sido objeto de discussões intermináveis e textos volumosos na galáxia digital, além de fonte de renda e material para infinitos cursos, livros, palestrinhas etc etc. E cá estou eu fazendo coro a esta polêmica inútil, nutrindo a ilusão de encerrá-la definitivamente, mas sabendo que não é assim que as coisas funcionam...  No fundo a questão é tão somente um apêndice, sendo a raiz do problema a lida do católico com o entretenimento e a ficção de modo geral (que já tinha sido resolvida por São Basílio Magno  no século IV), mas antes disso vamos tentar entender o que raios é esse negócio de educação do imaginário.

A modinha começou por aqui graças aos conselhos do filósofo Olavo de Carvalho (há quem quase idolatre esse velho, e outros que o odeiam desde as profundezas do ser, eu meio que não me importo mais, então sigamos), em diversos momentos, sendo o principal as aulinhas de  seu curso online de filosofia cof-cof-cof. O plano é o seguinte: o sujeito deve ler bastante ficção, mas não qualquer ficção, o foco deve estar nos "clássicos da literatura", as grandes obras do espírito humano, meio que tem uma listinha de recomendações...  A ideia é abastecer a mente de tipos humanos e situações possíveis, afim de que o sujeito não pense tão somente em abstrações coletivas impessoais. Russell Kirk já postulava algo assim, embora colocasse seu foco no sentido moral de tal arsenal imaginário, era preciso ler sobre virtudes e fatos heroicos, afim de imitá-los, mas esqueça Kirk por agora. Voltando ao Olavo, essa ficção deve ser senão verossímil - algo irreal mas possível no mundo humano - , absurda, coisa do mundo das fadas, um sonho. Coisas como o realismo fantástico e a fantasia científica, que unem os ''dois mundos'', o sonho e possível, seria má ficção e serviria para te deixar desgraçado da cabeça.

E onde está a treta? Pois é, não deveria haver nenhuma, mas brasileiro é copo de leite, sabe como é... Bem, a briga começou porque alguns tontos ficam perpetuamente atrás de formar o imaginário, negligenciando estudos mais avançados, ou mesmo o básico da doutrina cristã e outros, pistola com isso, argumentam que isso tudo é uma perda de tempo, que não tem que educar o imaginário coisa nenhuma, e basta a doutrina da Igreja e os exemplos da vida dos santos - bem, para a salvação isso basta, para o tipo de vida intelectual que almejam levar eu já não sei. Ah, tem também a questão de que a turma gosta de ler uns livrinhos imorais, recheados de cenas picantes e doutrinas esotéricas... A qual os outros reagem mostrando escritos dos padres franceses do século XIX contra a proliferação de romances e alertando do perigo destes para as almas das mocinhas... e tem hora que a discussão recua até o index. E como estamos na modernidade, jogue aí no meio filmes, animes, videogames: ''instrumento para educação do imaginário e fortalecimento do intelecto ou caminho de perdição?'', é o resumo da discussão.

Agora vamos resolver essa bagunça. Apesar de quê, eu não estou resolvendo nada, só li um livreto de São Basílio Magno de umas dez páginas intitulado: Carta aos Jovens sobre a Utilidade da Literatura Pagã, e estou a repetir alguns princípios. Aliás, você devia ler isso aí amigão, mas antes termine o meu texto aqui. A ideia é o seguinte, como católicos - se você não é católico, me pergunto o que raios está fazendo aqui? - nosso objetivo é o céu, correto? E para chegar ao céu temos de desviar do pecado e buscar as virtudes, logo na leitura de obras não cristãs, ensina o santo que devemos buscar aquilo que favorece a virtude, e evitar o que conduz ao pecado. Simples não? Procurar o que faz bem, evitar o que faz mal. Vamos esmiuçar isso aqui da forma mais prática possível.

Cá estou eu um belo dia, quando encontro aquele .pdf maroto na internet - sim porque aqui nós trabalhos com .pdf, construir uma biblioteca desvia muito dinheiro que prefiro investir em minhas aventuras bicicleteiras -  , antes de passar o arquivo para o Kindle e iniciar a leitura, devo me perguntar: porque raios quero ler isso? As respostas boas são: para aprender X coisas, ou só para me divertir mesmo. A resposta ruim é: porque todo mundo da minha turma está lendo, isso é coisa de gado. Depois disso eu entro num site superlegal chamado google.com e procuro críticas/análises/resumo do livro X, de preferência de gente de confiança, mas se não tiver, vejo mais ou menos do que se trata essa encrenca ("Mas vai ter spoliers?" Ah larga de ser fresco!). Feito isso, eu penso sobre os perigos e vantagens de tal leitura, decido se vale a pena e sigo adiante (se for um livro cheio das macumbas e detalhadas descrições pornográficas você abandona o barco já aí, vai ler essa encrenca para quê o zé mané?). Se durante a leitura perceber que aquele livro está me fazendo mal, favorecendo o diabo e me colocando no caminho do pecado, eu paro de ler. Não é muito complicado, não precisa de muito drama, é só não ser burro!

Ah sim, você também precisa mensurar um pouco o tempo, no sentido de que: quanto tempo estou perdendo com esse tipo de leitura e que benéficos estou tirando? Se tiver gastando tempo de mais com isso e negligenciando coisas importantes você tira um pouco pé, senão você continua.

Por fim, esse método do imaginário, você só segue se quiser levar certo estilo de vida intelectual, se for discípulo do Olavo (eu não sou) ou julgar que tal método é útil pra você (ele me trouxa algumas boas sacadas), se tem outro professor, ou acha isso uma bobeira, segue lá seu caminho, procura outro método.

Em suma, tudo isso se resolve na base da observação, tentativa e erro, e sobretudo com um bom exame de consciência. Agora se você não consegue fazer isso, bom, aprende primeiro e depois volta; pede um conselhos a seu diretor espiritual que costuma ajudar mais de ficar em rinha de internet enchendo o saco dos outros. 

Forte abraço!

P.S. Se quiser me "refutar" pode usar a secção comentários aí do blog, se não me xingar eu não apago. Ah, e por favor não me escreva um textão de 5 tediosas laudas com citações em latim eclesiástico.