segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

Educação do Imaginário? Por que raios vocês ainda estão brigando por isso?

Não é de hoje que a tal da "Educação do Imaginário" tem sido objeto de discussões intermináveis e textos volumosos na galáxia digital, além de fonte de renda e material para infinitos cursos, livros, palestrinhas etc etc. E cá estou eu fazendo coro a esta polêmica inútil, nutrindo a ilusão de encerrá-la definitivamente, mas sabendo que não é assim que as coisas funcionam...  No fundo a questão é tão somente um apêndice, sendo a raiz do problema a lida do católico com o entretenimento e a ficção de modo geral (que já tinha sido resolvida por São Basílio Magno  no século IV), mas antes disso vamos tentar entender o que raios é esse negócio de educação do imaginário.

A modinha começou por aqui graças aos conselhos do filósofo Olavo de Carvalho (há quem quase idolatre esse velho, e outros que o odeiam desde as profundezas do ser, eu meio que não me importo mais, então sigamos), em diversos momentos, sendo o principal as aulinhas de  seu curso online de filosofia cof-cof-cof. O plano é o seguinte: o sujeito deve ler bastante ficção, mas não qualquer ficção, o foco deve estar nos "clássicos da literatura", as grandes obras do espírito humano, meio que tem uma listinha de recomendações...  A ideia é abastecer a mente de tipos humanos e situações possíveis, afim de que o sujeito não pense tão somente em abstrações coletivas impessoais. Russell Kirk já postulava algo assim, embora colocasse seu foco no sentido moral de tal arsenal imaginário, era preciso ler sobre virtudes e fatos heroicos, afim de imitá-los, mas esqueça Kirk por agora. Voltando ao Olavo, essa ficção deve ser senão verossímil - algo irreal mas possível no mundo humano - , absurda, coisa do mundo das fadas, um sonho. Coisas como o realismo fantástico e a fantasia científica, que unem os ''dois mundos'', o sonho e possível, seria má ficção e serviria para te deixar desgraçado da cabeça.

E onde está a treta? Pois é, não deveria haver nenhuma, mas brasileiro é copo de leite, sabe como é... Bem, a briga começou porque alguns tontos ficam perpetuamente atrás de formar o imaginário, negligenciando estudos mais avançados, ou mesmo o básico da doutrina cristã e outros, pistola com isso, argumentam que isso tudo é uma perda de tempo, que não tem que educar o imaginário coisa nenhuma, e basta a doutrina da Igreja e os exemplos da vida dos santos - bem, para a salvação isso basta, para o tipo de vida intelectual que almejam levar eu já não sei. Ah, tem também a questão de que a turma gosta de ler uns livrinhos imorais, recheados de cenas picantes e doutrinas esotéricas... A qual os outros reagem mostrando escritos dos padres franceses do século XIX contra a proliferação de romances e alertando do perigo destes para as almas das mocinhas... e tem hora que a discussão recua até o index. E como estamos na modernidade, jogue aí no meio filmes, animes, videogames: ''instrumento para educação do imaginário e fortalecimento do intelecto ou caminho de perdição?'', é o resumo da discussão.

Agora vamos resolver essa bagunça. Apesar de quê, eu não estou resolvendo nada, só li um livreto de São Basílio Magno de umas dez páginas intitulado: Carta aos Jovens sobre a Utilidade da Literatura Pagã, e estou a repetir alguns princípios. Aliás, você devia ler isso aí amigão, mas antes termine o meu texto aqui. A ideia é o seguinte, como católicos - se você não é católico, me pergunto o que raios está fazendo aqui? - nosso objetivo é o céu, correto? E para chegar ao céu temos de desviar do pecado e buscar as virtudes, logo na leitura de obras não cristãs, ensina o santo que devemos buscar aquilo que favorece a virtude, e evitar o que conduz ao pecado. Simples não? Procurar o que faz bem, evitar o que faz mal. Vamos esmiuçar isso aqui da forma mais prática possível.

Cá estou eu um belo dia, quando encontro aquele .pdf maroto na internet - sim porque aqui nós trabalhos com .pdf, construir uma biblioteca desvia muito dinheiro que prefiro investir em minhas aventuras bicicleteiras -  , antes de passar o arquivo para o Kindle e iniciar a leitura, devo me perguntar: porque raios quero ler isso? As respostas boas são: para aprender X coisas, ou só para me divertir mesmo. A resposta ruim é: porque todo mundo da minha turma está lendo, isso é coisa de gado. Depois disso eu entro num site superlegal chamado google.com e procuro críticas/análises/resumo do livro X, de preferência de gente de confiança, mas se não tiver, vejo mais ou menos do que se trata essa encrenca ("Mas vai ter spoliers?" Ah larga de ser fresco!). Feito isso, eu penso sobre os perigos e vantagens de tal leitura, decido se vale a pena e sigo adiante (se for um livro cheio das macumbas e detalhadas descrições pornográficas você abandona o barco já aí, vai ler essa encrenca para quê o zé mané?). Se durante a leitura perceber que aquele livro está me fazendo mal, favorecendo o diabo e me colocando no caminho do pecado, eu paro de ler. Não é muito complicado, não precisa de muito drama, é só não ser burro!

Ah sim, você também precisa mensurar um pouco o tempo, no sentido de que: quanto tempo estou perdendo com esse tipo de leitura e que benéficos estou tirando? Se tiver gastando tempo de mais com isso e negligenciando coisas importantes você tira um pouco pé, senão você continua.

Por fim, esse método do imaginário, você só segue se quiser levar certo estilo de vida intelectual, se for discípulo do Olavo (eu não sou) ou julgar que tal método é útil pra você (ele me trouxa algumas boas sacadas), se tem outro professor, ou acha isso uma bobeira, segue lá seu caminho, procura outro método.

Em suma, tudo isso se resolve na base da observação, tentativa e erro, e sobretudo com um bom exame de consciência. Agora se você não consegue fazer isso, bom, aprende primeiro e depois volta; pede um conselhos a seu diretor espiritual que costuma ajudar mais de ficar em rinha de internet enchendo o saco dos outros. 

Forte abraço!

P.S. Se quiser me "refutar" pode usar a secção comentários aí do blog, se não me xingar eu não apago. Ah, e por favor não me escreva um textão de 5 tediosas laudas com citações em latim eclesiástico. 

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