quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Os perigos do romantismo

Emma lera Paul e Virginie e sonhara com a casinha de bambu, com o negro Domingo, com o cachorro Fiel, mas, sobretudo, com a doce amizade de algum bom irmãozinho que colhesse frutos vermelhos para ela nas árvores grandes, mais altas que campanários, ou que corresse de pés descalços pela areia trazendo-lhe um ninho de passarinho.

Quando completou treze anos, o pai levou-a à cidade, para colocá-la no convento. Hospedaram-se em uma estalagem no bairro de Saint-Gervais, onde receberam a ceia em pratos pintados com representações da história da senhorita de la Vallière. As explicações das legendas, cortadas aqui e ali pelos arranhões de facas, glorificavam a religião, as delicadezas do coração e as pompas da Corte. 

Longe de se aborrecer no convento, durante os primeiros tempos ela divertiu-se na companhia das freiras, que, para entretê-la, conduziam-na à capela, na qual se penetrava pelo refeitório, depois de um corredor comprido. Ela brincava muito pouco durante os recreios, compreendia bem o catequismo e era sempre a primeira a responder às questões difíceis do senhor vigário. Vivendo então sem nunca sair da atmosfera morna das aulas e entre aquelas mulheres de tez branca, de terço e cruz de cobre, entorpeciase suavemente com o langor místico que os perfumes do altar exalam, com o frescor da pia de água benta e com o brilho dos círios. Em vez de acompanhar a missa, contemplava em seu livro as ilustrações religiosas bordejadas de azul, e adorava a ovelha doente, o Sagrado Coração trespassado de flechas agudas ou o pobre Jesus que tropeça em sua cruz. Tentou, por mortificação, ficar um dia inteiro sem comer. Procurava em sua mente alguma promessa para cumprir.

Quando se confessava, inventava pecadinhos só para ficar mais tempo ajoelhada à sombra, mãos unidas, rosto encostado na grade, ouvindo o murmurar do padre. As comparações de noivo, esposo, amante celeste e marido eterno que se repetiam nos sermões provocam-lhe no fundo da alma doçuras inesperadas.

À noite, antes da oração, faziam uma leitura religiosa na sala de estudos. Durante a semana, liam algum resumo de história sagrada ou as Conferências do abade Frayssinous, e, nos domingos, passagens do Gênio do cristianismo, por distração. Como escutava, nas primeiras vezes, as lamentações sonoras das melancolias românticas repetindo-se em todos os ecos da terra e da eternidade! Se sua infância houvesse transcorrido nos fundos de uma loja de um bairro comercial, ela talvez se sentisse aberta às invasões líricas da natureza, que, em geral, chegam a nós somente através das traduções dos escritores. Mas ela conhecia bem demais o campo; conhecia o balido dos rebanhos, os laticínios, os arados. Acostumada à calma, atraía-se, inversamente, pelos aspectos acidentados. Gostava do mar apenas pelas tempestades e da vegetação apenas quando esta se encontrava dispersa em ruínas. Precisava extrair das coisas uma espécie de lucro pessoal e rejeitava, considerando inútil, tudo aquilo que não contribuísse à conservação imediata de seu coração – por ser de temperamento mais sentimental do que artístico, buscava emoções e não paisagens.

No convento, havia uma solteirona que vinha todos os meses, durante oito dias, para trabalhar na rouparia. Protegida pelo arcebispo por pertencer a uma antiga família de fidalgos arruinados durante a Revolução, comia à mesa das freiras no refeitório e trocava algumas palavras com elas depois da refeição, antes de subir e retomar o trabalho. Freqüentemente, as alunas internas escapavam da sala de estudos para conversar com ela. Sabia de cor canções galantes do século passado, que cantava à meia-voz, enquanto sua agulha avançava. Contava histórias, anunciava as novidades, ia à cidade cumprir as incumbências de que a encarregavam e emprestava às alunas maiores, às escondidas, romances que sempre levava nos bolsos do avental e cujos longos capítulos ela própria devorava, nos intervalos de seu trabalho. Tudo eram amores, amantes, damas perseguidas desmaiando nos pavilhões solitários, postilhões assassinados em todos os albergues, cavalos mortos em todas as páginas, florestas escuras, agitações no coração, sermões, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis em bosques, homens bravos como leões, brandos como cordeiros, virtuosos como ninguém, sempre bem-vestidos e que choram como viúvas. Durante seis meses, aos quinze anos, Emma sujou suas mãos com a poeira dos velhos gabinetes de leitura. Com Walter Scott, mais tarde, encantou-se com as coisas históricas, sonhou com arcas, salas de guarda e menestréis. Teria apreciado viver em algum velho solar, como aquelas castelãs de corpetes compridos, que, sob os ornamentos das ogivas, passavam seus dias com o cotovelo apoiado sobre o peitoril e o queixo na mão, esperando vir do fundo do campo um cavaleiro com uma pluma branca, galopando sobre um cavalo negro. Nessa época, cultuara Mary Stuart e venerara com entusiasmo mulheres ilustradas ou infelizes. Joana d’Arc, Heloísa, Agnès Sorel, a bela Ferronnière e Clémence Isaure; para ela, destacavam-se como cometas na imensidão tenebrosa da história, onde se sobressaíam ainda, aqui e ali, mas mais perdidos na sombra e sem nenhuma relação entre si, São Luís com seu carvalho, Bayard moribundo, algumas ferocidades de Luís XI, algo de São Bartolomeu, o penacho do Bearnês, e sempre a lembrança dos pratos pintados, nos quais Luís XIV era elogiado. 

Na aula de música, as romanças que cantava só falavam de anjinhos com asas de ouro, madonas, lagunas, gondoleiros, composições pacíficas que lhe deixavam entrever, através da tolice do estilo e das imprudências das notas, a atraente fantasmagoria das realidades sentimentais. Algumas de suas camaradas traziam para o convento os keepsakes que haviam recebido de Ano-Novo. Era preciso escondê-los, como era complicado! Liam-nos nos dormitórios. Manipulando delicadamente suas belas encadernações de cetim, Emma concentrava seu olhar fascinado no nome dos autores desconhecidos que haviam assinado, geralmente condes ou viscondes, ao final de suas composições. 

Estremecia ao suspender com um sopro o papel de seda das gravuras, que se levantava meio dobrado e caía suavemente sobre a página. Era um rapaz de capa curta que, por trás da balaustrada de uma sacada, abraçava uma moça de vestido branco, com uma bolsinha presa à cintura; ou então os retratos anônimos das ladies inglesas com cachos louros, que, debaixo do chapéu de palha redondo, olhavam-na com seus enormes olhos claros. Viam-se algumas esparramadas em carruagens que deslizavam por parques, onde um galgo saltitava à frente da atrelagem conduzida a trote por dois pequenos postilhões de calções brancos. Outras, em devaneio no sofá, ao lado de um bilhete aberto, contemplavam a lua pela janela entreaberta, semicoberta por um véu negro. As ingênuas, com uma lágrima sobre a face, afligiam uma rolinha pelas grades de uma gaiola gótica, ou, sorrindo, com a cabeça inclinada sobre o ombro, desfolhavam uma margarida com os dedos pontudos, arrebitados como sapatos de bico revirado. E vós, sultões com longos cachimbos, também estais ali, pasmados debaixo de caramanchões, nos braços de bailarinas, infiéis, sabres turcos, barretes gregos, e vós, sobretudo, paisagens macilentas das regiões ditirâmbicas, que freqüentemente nos mostrais ao mesmo tempo palmeiras, pinheiros, tigres à direita, um leão à esquerda, minaretes tártaros no horizonte, no primeiro plano, ruínas romanas, a seguir, camelos acocorados – tudo isso enquadrado por uma floresta virgem bem cuidada e com um enorme raio de sol perpendicular tremulando na água, onde se destacam em manchas brancas, sobre um fundo cinzento, cisnes nadando.

E o abajur do candeeiro, pendurado na parede sobre a cabeça de Emma, iluminava todos aqueles quadros do mundo que desfilavam diante dela uns atrás dos outros, no silêncio do dormitório e ao som longínquo de algum fiacre retardatário que ainda percorria os bulevares.

Quando a sua mãe morreu, ela chorou muito nos primeiros dias. Mandou fazer um quadro fúnebre com os cabelos da falecida, e, em uma carta que enviara a Bertaux, toda cheia de reflexões tristes sobre a vida, pedia que a enterrassem mais tarde no mesmo lugar. O velhote achou que ela estivesse doente e foi vê-la. Emma ficou intimamente satisfeita por ter obtido na primeira tentativa aquele raro ideal das existências pálidas, aonde os corações medíocres nunca conseguem chegar. Deixou-se então levar pelos meandros lamartinianos, ouviu as harpas nos lagos, todos os cantos de cisnes moribundos, todas as quedas de folhas, as virgens puras que subiam ao céu e a voz do Eterno ecoando nos vales. Aborreceu-se, mas não quis reconhecê-lo, continuou por costume, a seguir, por vaidade e ao final ficou surpresa de sentir-se apaziguada e sem mais tristezas no coração do que rugas na testa.

As religiosas, que haviam tão bem previsto a sua vocação, notaram com grande surpresa que a senhorita Rouault parecia escapar a seus cuidados. Com efeito, elas tanto lhe prodigaram ofícios, retiros, novenas e sermões, tão bem lhe pregaram o respeito que se deve aos santos e aos mártires e tantos bons conselhos lhe deram para a modéstia do corpo e a salvação de sua alma que ela fez como os cavalos puxados pelas rédeas: empacou, de repente, e o freio saiu-lhe dos dentes. Aquele espírito positivo em meio a seus entusiasmos, que amara a igreja pelas flores, a música pelas letras de romanças e a literatura pelas excitações passionais, insurgia-se diante dos mistérios da fé, do mesmo modo que se irritava contra a disciplina, que era algo antipático à sua constituição. Quando seu pai a retirou do internato, ninguém ficou aborrecido por vê-la partir. A madre superiora achava inclusive que ela se tornara, nos últimos tempos, pouco reverente em relação à comunidade. 

Emma, de volta a casa, divertiu-se com o comando dos criados, a seguir, passou a sentir aversão pelo campo e saudade do convento. Quando Charles veio a Bertaux pela primeira vez, ela considerava-se muito desiludida, não tendo mais nada a aprender, não tendo mais nada para sentir. 

Mas a ansiedade em relação a um novo estado, ou talvez a irritação causada pela presença daquele homem, bastara-lhe para que acreditasse que possuiria, enfim, aquela paixão maravilhosa que até então era tida como um pássaro grande de plumagem rosa planando no esplendor dos céus poéticos – e ela não podia imaginar agora que aquela calma em que vivia fosse a felicidade com que sonhara.

- Gustav Flaubert. Madame Bovary; Primeira Parte, Cap. VI.

Nenhum comentário:

Postar um comentário