terça-feira, 16 de março de 2021

Da utilidade do medo


4ª Semana da Quaresma - Terça-feira
Primeira Leitura (Ez 47,1-9.12)
Salmo Responsorial (Sl 45)
Evangelho (Jo 5,1-16)

1. Um homem jazia enfermo, paralítico, por mais de trinta e oito anos. Aguardava, porém, a manifestação do anjo, sob a piscina de Betesda. Quando aquele sobrevoava sob as águas, estas se agitavam, e então ali se realizavam curas espantosas. Mas, quando as águas se agitavam, outros doentes corriam ao local e conseguiam a cura, enquanto ele não conseguia chegar a tempo. Trinta e oito longos anos em tal situação, mas eis que Nosso Senhor Jesus Cristo vai até o local, e o cura pela força de sua palavra.
 
Depois de tanto sofrimento, finalmente a cura! Seria a hora, talvez pensemos, de animá-lo com palavras positivas, mas não é assim que a história prossegue. Após a cura, um alerta, de gravidade espantosa: <Depois acho-o Jesus no Templo e disse-lhe, Olha que já estás são: não peques mais, para que não te suceda alguma cousa peior. (Jo 5,14)>; coisa pior... Se a situação de outrora era desoladora, há o risco de um sofrimento tanto mais terrível e intenso, de castigos ainda maiores, e a causa de tudo isso? O pecado.

Nosso país é festivo e alegre demais a um ponto de se tornar inconsequente. Tal inconsequência é tanto mais agravada pela influência nefasta da ideologia liberal. Vemos os efeitos disso no contexto desta pandemia que tarda a passar... Mas, essa mesma inconsequência julga que quando isso acabar, virão tempos melhores: "- Chega de tanto sofrimento!", surgem aqui e ali falsos profetas de um otimismo infantil a pavonear uma era de glória. Não será assim. Quando isso acabar, se acabar, urge que fiquemos alertas e não tornemos a pecar, do contrário, nos sucederá cousa peior.

É necessário que cultivemos o temor, o medo, e encaremos com realismo a gravidade da existência. O mundo não é uma festa, mas uma guerra sem trégua contra as potências do inferno. Não há descanso senão nos céus.

2. Encerro essas reflexões com um poema de José Feldman a respeito da figura do corvo. Meditar no aspecto sombrio e triste, no simbolismo noturno associado ao animal ajudar-nos-á temperar a inconsequência festiva do caráter dionisíaco da cultura a qual pertencemos.

O Corvo

Porque voas tão macambúzio,
Mergulhado na embriaguez
de teus sonhos?
Porque pousas no alto da árvore,
Olhando por sobre o mundo
Em busca de sonhos vãos?

Voas…
Voas como um presságio de mau agouro,
Alçando-se acima das tentações,
Abandonando sentimentos.
Um peregrino perdido
Em meio ao universo de ilusões.

Asas negras por sobre cabeças,
O espectro de um espírito solitário
Mergulhado no lago do desamor.

Oh! Grasnar de melancolia,
Entregue ao vento de incertezas
Desfazendo as nuvens do existir.

Vem!!!…
Vem, meu pequenino pássaro preto,
Acolha-se entre meus braços.
Seja este momento de tristeza,
Funda-se em meu angustiante ser –
Vem!!!
Peregrino da solidão.

Voa!!!
Voa por sobre o mundo.
Voa!!!
Voa, pois não estás só
Eu voo junto de ti.
Voa!!!!
Ave da infelicidade
Pois não és apenas um pássaro,
És um eu!…

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