domingo, 28 de março de 2021

Do simbolismo do dragão aos efeitos medicinais do chá verde

CHÁ


Bebo em goles apequenados.
Na boca o calor
da água perfumada.

O gole prolonga
a indefinição do instante

no perfume retirado
do gosto amargo
em gesto de regresso.

- Pedro Du Bois

Na tradição cristã, o dragão é um símbolo comumente associado ao diabo, embora possamos devanear que como antes da queda Lúcifer era um anjo do coro dos seraphins, e que o pecado lhe privou da graça mas não alterou sua natureza, os anjos desta mesma hierarquia possam vir a apresentar tal forma. Além disso, na tradição oriental e em alguns aspectos marginais da arte ocidental, o dragão é usado puramente como símbolo de poder, onipotência, sem contudo apresentar caracteres demoníacos, como descreve Jean Chevalier[1]:

5. Potencia celeste, creadora, ordenadora, el dragón es naturalmente el símbolo del emperador. Es de señalar que este simbolismo se aplica no sólo en la China, sino también entre los celtas, y que un texto hebreo habla del Dragón celeste como de un rey sobre su trono. Está asociado en efecto al rayo (escupe fuego) y a la fertilidad (trae la lluvia). Simboliza así las funciones reales y los ritmos de la vida, que garantizan el orden y la prosperidad. Por esta razón se ha convertido en el emblema del emperador. Lo mismo que se exponen retratos de éste, «cuando hace estragos la sequía, se hace una imagen del dragón Yin y comienza entonces a llover» (GRAD, 1, 361). El dragón es una manifestación de la omnipotencia imperial china: la cara del dragón significa la cara del emperador; el paso del dragón es la andadura majestuosa del jefe; la perla del dragón, que éste posee en la garganta, es el brillo indiscutible de la palabra del jefe, la perfección de su pensamiento y de sus órdenes. «No se discute la perla del dragón», declaró recientemente Mao Tse Tung.

Que tem isso com o assunto da postagem? Absolutamente nada, tal devaneio é apenas uma forma de tentar dar uma interpretação mais benigna a imagem que ilustra o texto, a qual todavia inseri por motivos puramente estéticos. O assunto deste texto é o chá, mais especificamente o chá verde. Apreciado sobretudo por seu sabor característico, tal bebida também é citada frequentemente por seus efeitos medicinais, não raro se vê em diversas páginas nas redes sociais imagens e gráficos sobre tais efeitos, pretendo fazer mais ou menos a mesma coisa, mas com algumas referências acadêmicas um tanto quanto mais explícitas.

Há um trabalho recente, de Nayane Duarte Ribeiro Urzedo[2], nos trás os seguintes dados:

A apreciação do chá verde é atribuída ao seu aroma, sabor e também às suas propriedades funcionais conhecidas por todo o mundo. Segundo De Oliveira e Mendes (2013) estudos recentes têm demonstrado os benefícios à saúde humana ao consumir este chá, o qual contribui no tratamento de doenças através do seu potencial anticarcinogênico, propriedades antioxidantes, hipoglicemiante e anti-inflamatória.

Pesquisas indicaram que seu potencial anticarcinogênico melhora dia após dia a qualidade do tratamento de pessoas que possuem câncer. Isso ocorre devido à catequina presente nessa bebida, agindo na diminuição da proliferação das células cancerígenas com seus efeitos inibidores da agressão dos radicais ao DNA (ANNELI et al., 2016).

As propriedades antioxidantes deste chá se devem aos flavonoides presentes nele com sua prevenção à ocorrência de doenças relacionadas com o estresse oxidativo (desequilíbrio entre moléculas oxidantes e antioxidantes). Na maioria dos casos, esses danos oxidativos às estruturas biológicas são associados à atuação de radicais. Nesse caso, os flavonoides atuam na inativação dos radicais doando elétrons através dos átomos de hidrogênio para o oxigênio, evitando assim a produção deles no organismo (LODI, NAVARRO, 2011).

Anneli e colaboradores (2016) constataram que através do chá verde e suas propriedades hipoglicemiantes a sensibilidade a insulina tem seus efeitos acrescidos pelos polifenóis presentes no mesmo. O chá também age na diminuição a resistência da insulina no organismo, pois o transportador de glicose tem um potencial acréscimo em suas atividades. Sua ação antiinflamatória também se deve aos polifenóis que conseguem diminuir o processo inflamatório de artrite asséptica, por exemplo.

Alguns estudos têm demonstrado resultados positivos de produtos naturais como o chá verde, sobre a atividade antimicrobiana. A cárie dental é uma doença infecciosa de origem bacteriana, cujo desenvolvimento depende de quatro fatores: tempo, dente, microbiota e dieta. A intervenção sobre qualquer um desses fatores impede seu desenvolvimento, assim para a resolução deste problema, o chá neste caso é uma ótima solução possível (CASTILHO, MURATA, PARDI., 2007).

[...]

Além disso, o chá verde é recomendado a ciclistas no pós-treino pois reduz as dores devido a exercício intenso, bem como acelera o período de recuperação. E isso digo com propriedade, pois testei diversas vezes! De todo o modo, se não querem acreditar em mim, segue alguns dados de experimentos realizados no estrangeiro:

[...] Quando ciclistas foram submetidos à fadiga acumulada em dias seguidos, o chá verde ajudou na recuperação. Verificamos isso da seguinte forma: primeiramente os ciclistas realizaram um teste incremental máximo para determinação da potência máxima.

Nos dias seguintes, eles realizavam um teste submáximo de 50 minutos em um cicloergômetro com intensidade fixa em 60% da potência máxima.

Então eles receberam cápsulas com compostos de chá verde ou um placebo que deviam ser tomadas ao longo de 15 dias. Nos três últimos dias de suplementação eles faziam sessões de exercícios de extensão de joelhos até a exaustão, para fadigar a musculatura da coxa (principais músculos produtores de potência no ciclismo). Por fim, repetiam o teste em cicloergômetro.

Esse último teste era realizado em uma condição de forte fadiga acumulada após dois dias prévios de exaustão do quadríceps. Os ciclistas que haviam tomado o composto de chá verde tinham melhor condição de ativação dos músculos e menores indicativos de dano muscular no último teste de ciclismo. Isso sugere que o chá verde ajudou na recuperação ao longo dos dias de treino intenso (1).

Esse tipo de situação de fadiga acumulada pode acarretar dor muscular tardia.

Em outro estudo recente, observamos que embora a sensação dor tardia não seja menor após a suplementação com chá verde, os marcadores de dano muscular se mostram diminuídos (2). Novamente isso sugere que o chá verde parece ter potencial para ajudar a minimizar o dano muscular após o exercício intenso.[3]

E por fim a cereja do bolo, que deve deixar os produtores de chá milionários: o chá verde serve como remédio contra o covid-19! Ok, não é bem assim... Existem alguns estudos iniciais de uma universidade alemã segundo a qual este inibiria a ação do vírus in vitro, nada muito conclusivo que permita uma afirmação taxativa, mas segue a informação caro leitor:

[...] Após uma incubação 5 minuto com as substâncias ervais, encontraram que o suco do chokeberry diminuiu a infectividade quase 3.000 vezes comparadas a um controle com somente um amortecedor. O suco da baga de sabugueiro, o suco da romã, e o chá verde diminuíram a infectividade em aproximadamente dez vezes. Um aumento no tempo da incubação ao minuto 20 aumentou a actividade somente marginal, indicando que a actividade antivirosa é rápida. Isto sugere que os extractos ervais sejam geralmente activos contra vírus envolvidos. [...]

Os estudos mostraram que gargarejando com chá, os extractos do chá, ou os sucos da planta podem abaixar infecções da gripe e sintomas virais. Similarmente, o chokeberry ou os sucos da romã podiam ser usados contra SARS-CoV-2, além do que chás. [...]

Embora as quantidades dos compostos antivirosos diferentes em produtos naturais possam variar com grupos diferentes do produto, os produtos naturais com sua mistura de compostos podem ser um método poderoso de limitar infecções virais e há uma necessidade para umas investigações clínicas mais adicionais. [4]

Interessante não? Mas creio que se for novato nesse negócio de chás terá dificuldades com o chá verde e seu gosto amargo, nada, porém, que um pouco de mel não resolva.

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Referências:
[1] CHEVALIER, Jean & Gheerbrant. Diccionario de los símbolos; p,872.
[2] URZEDO, Nayane Duarte Ribeiro. O chá verde e suas propriedades: uma breve revisão bibliográfica abrangendo os anos de 2000 a 2020; p.19-21.

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