domingo, 13 de junho de 2021

Conservadorismo e Idolatria


Conservadorismo... isso é tão 2013. O entusiasmo para essa bobagem parece ter passado dado ao desastroso mandato do atual presidente (escrevo esse texto em meados 2021, caro leitor do futuro, e o clima social é de grande decepção e raiva ante as tolices de Bolsonaro, sobretudo no que diz respeito a sua péssima gestão e boicote a medidas de combate a pandemia de covid-19) e, ao que tudo indica, veremos um retorno da esquerda marcusiana para castigar ainda mais este país impenitente. De todo modo a atitude - mais do que a ideologia - conservadora é uma constante na espécie humana e é sobre isso que quero me deter. Já que estamos transcendendo os limites de nosso onde e quando, trago aos senhores uma notícia da última década vinda da Malásia e de fora da grei da Igreja:

Um partido conservador islâmico da Malásia está exortando os homens muçulmanos a se casarem com mães solteiras como esposas adicionais ao invés de se casarem com “jovens virgens”, o um oficial do estado afirmou.

Wan Ubaidah Omar, uma ministra de gabinete do norte de Kelantan, no qual o partido controla, disse que a proposta levantada no parlamento do estado esta semana é necessária para ajudar mães solteiras e viúvas naquela região sub desenvolvida.

“Muçulmanos geralmente gostam de meninas novas ou virgens como esposas adicionais, então sugerimos que ao invés de escolheres estas jovens virgens, porque eles não se casam com mães solteiras como suas segundas ou terceiras esposas?” ela diz.

“Isto irá diminuir a carga em cima das mães solteiras pois assim os homens poderiam ajudá-las a tomarem conta das crianças. As mulheres solteiras não tem esta carga,” disse Wan Ubaidah, que está no comando dos assuntos das mulheres, família e saúde do estado.[1]

O episódio é ilustrativo e o fato de vir do Islã mostra que o conservadorismo não é apenas um problema cristão. Consegue notar a lógica por trás do ocorrido? A mentalidade idólatra do conservadorismo? Pois explico: o que caracteriza o conservadorismo é o culto unilateral a sociedade, e mais especificamente ao status quo, o conservador é o melhor amigo da sociedade, e faz de tudo para defender a perpetuação do presente e para tal exige dos cidadãos uma grande dose de heroísmo e auto sacrifício. Mas, ele jamais se pergunta sobre a legitimidade de tal sociedade, se o modelo que ele quer conservar é de fato digno de ser conservado ou se aqueles de quem ele exige sacrifícios em prol de um ''bem maior'' de fato consideram aquilo um bem ante o qual valha a pena se sacrificar. Na notícia em questão, o partido conservador maometano da Malásia quer que os homens transformem o casamento em uma espécie de programa social, que ele seja motivado não por questões amorosas ou religiosas, não por preferências pessoais, mas para desafogar o Estado e remediar a sociedade. Vemos uma atitude semelhante em muitos cristãos em um discurso casamenteiro e fatalista exacerbado tendo em vista não a Deus, mas antes o "salvar a civilização ocidental'', há, incluso análogos japoneses em uma revolta constante contra o que eles denominam de uma geração de jovens parasitas que não querem cumprir seus ''deveres sociais'' (mas sobre isso, pretendo escrever em outra ocasião).

O conservador, pois, sofre daquilo que Kaczynski chama de sobressocialização; é um ser tão imerso no coletivo, que já não mais é capaz de pensar em termos de ''eu'', mas sempre em um ''nós''. Tanto que sua crave moral gira em torno da ridícula discussão entre ''altruísmo'' e ''egoísmo''. Também é igualmente ridícula a oposição destes (conservadores) ao liberalismo que se dá pelos motivos errados, não porque os liberais violariam os mandamentos divinos com requisições de uma liberdade exacerbada, mas antes porque seriam ''egoístas'' e pouco engajados no coletivo.

É certo que não raro o ''eu'' pode se transformar em um ídolo, mas substitui-lo por um ''nós'' não resolve o problema, na verdade até piora. Só a Deus devemos oferecer nossos sacrifícios e é na medida que a Ele se submete que a sociedade adquire sua dignidade, tanto mais se esta d'Ele se afasta os apelos daquela  pelo heroísmo de seus membros se tornam vazios. Se o leitor quer sacrificar sua vida em prol da colmeia, se acredita que suas decisões mais íntimas como se vira a se casar e com quem o fará, como vai adquirir sua renda, e como vai empregar seu tempo livre devem ser feitas pensando no bem social, que siga seu caminho (e case com uma mãe solteira, trabalhando para criar o filho dos outros). Mas, eu e minha casa serviremos ao Senhor. E naquilo que o Senhor não define como mandamento, seguirei o que julgo que é melhor para mim e os meus, e não há nada de errado com isto. 

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