sexta-feira, 4 de junho de 2021

Sobresocialização


9ª Semana do Tempo Comum | Sexta-feira
Primeira Leitura (Tb 11,5-17)
Responsório (145)
Evangelho (Mc 12,35-37)

A ação nasce da reflexão, própria ou alheia. Um indivíduo culto ordena os princípios em seu interior, traça um plano e dele deriva sua atividade. Um indivíduo inculto ''pensa'' com ''a inteligência coletiva'' age de forma a refletir os valores da sociedade no entorno, da educação que recebeu. O segundo caso me parece mais o de um animal adestrado, um poodle de circo, do que de fato um indivíduo humano, livre. E há quem se contente em ser assim e que a todo momento clame por alguém que lhe diga o que fazer, como se comportar, e procura escapar de todo e qualquer pensamento mais ou menos abstrato, da qual não se possa extrair uma consequência prática imediata. Tal homem seria aquilo que o eco-terrorista Unabomber (que não nasceu terrorista, mas foi transformado em um depois de ser vítima de um experimento de lavagem cerebral da CIA, o programa MK Ultra) chamaria de sobressocializado.

SOBRESOCIALIZAÇÃO

24. Os psicólogos usam o termo "socialização" para designar o processo pelo qual as crianças são treinados para pensar e agir como a sociedade exige. Uma pessoa diz-se ser bem socializada se ela acredita e obedece ao código moral da sua sociedade e encaixa-se bem como uma parte funcional da sociedade. Pode parecer sem sentido dizer que muitos esquerdistas são excessivamente-socializados, uma vez que o esquerdista é percebido como um rebelde. No entanto, a posição pode ser defendida. Muitos esquerdistas não são tão rebeldes quanto parecem.

25. O código moral da nossa sociedade é tão exigente que ninguém pode pensar, sentir e agir de uma maneira completamente moral. Por exemplo, não é suposto odiarmos ninguém, mas quase todo mundo odeia alguém em algum momento ou outro, quer ele admita para si mesmo ou não. Algumas pessoas são tão altamente socializadas que a tentativa de pensar, sentir e agir moralmente impõe uma pesada carga sobre eles. A fim de evitar sentimentos de culpa, eles continuamente têm de enganar-se sobre os seus próprios motivos e encontrar explicações morais para sentimentos e acções que na realidade não têm uma origem moral. Usamos o termo "excessivamente-socializados" para descrever essas pessoas. [2]

26. A sobresocialização pode levar a baixa auto-estima, um sentimento de impotência, derrotismo, culpa, etc. Um dos meios mais importantes pelos quais a nossa sociedade socializa as crianças é, fazendo-as sentir vergonha do comportamento ou da fala que é contrária às expectativas da sociedade. Se isso é exagerado, ou se uma criança em particular é especialmente susceptível a tais sentimentos, acaba por sentir vergonha de SI MESMO. Além disso, o pensamento e o comportamento da pessoa sobresocializada estão mais restritos por expectativas da sociedade que os da pessoa levemente socializada. A maioria das pessoas envolve-se numa quantidade significativa de comportamento impróprio. Elas mentem, cometem pequenos furtos, violam as leis de trânsito, faltam ao trabalho, odeiam alguém, dizem coisas maldosas ou usam algum truque para ter vantagem sobre outra pessoa. A pessoa sobresocializada não pode fazer essas coisas, ou se as faz ele gera em si mesmo um sentimento de vergonha e auto-ódio. A pessoa sobresocializada não pode sequer experimentar, sem culpa, pensamentos ou sentimentos que são contrárias à moralidade aceites; ela não pode ter pensamentos "impuros". E socialização não é apenas uma questão de moralidade; estamos socializados para estar em conformidade com muitas normas de comportamento que não se enquadram sob o título de moralidade. Assim, a pessoa sobresocializada é mantida numa correia psicológica e passa a vida correndo sobre os trilhos que a sociedade criou para ela. Em muitas pessoas sobresocializadas isso resulta numa sensação de constrangimento e de impotência que pode ser uma grave dificuldade. Nós sugerimos que a sobresocialização está entre as mais graves crueldades que os seres humanos causam um ao outro.

[...]

32. Os problemas da esquerda são indicativos dos problemas da nossa sociedade como um todo. Baixa auto-estima, tendências depressivas e derrotismo não se restringem à esquerda. Embora eles são especialmente perceptíveis na esquerda, eles são comuns na nossa sociedade. E a sociedade de hoje tenta nos socializar em maior medida do que qualquer sociedade anterior. Somos até informados por especialistas como comer, como exercitar, como fazer amor, como educar os nossos filhos e assim por diante.

A verdadeira religião não nos quer assim. A moral deriva do conhecimento de Deus, não seguimos regras comportamentais porque sim, porque é certo e bláblá.... Em primeiro lugar somos introduzidos nos mistérios da divindade, aprendemos sobre as maravilhas que Deus realizou na história, a discernir a ação das forças de natureza espiritual, a investigar os princípios que regem o cosmos, a sondar o poder oculto e profundo dos sacramentos, e então da posse de todas essas verdades, só depois de nos maravilharmos com tudo isso, é que vem os mandamentos. Tanto que a maior parte do texto das Sagradas Escrituras são narrativas, sendo a injunção restrita a trechos muito específicos e pouco numerosos. No Evangelho de hoje, por exemplo, a cena que comtemplamos é o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo a respeito de teologia dogmática, expondo o sentido das profecias de Davi. E ao fim é dito que a multidão o escutava com prazer. Temos nós a mesma atitude ao sondar os mistérios divinos, ou antes já nos tornamos poodles de circo, que não tem tempo para ''teoria'' e querem logo que alguém lhes diga o que fazer, que lhes dê uma tarefa a cumprir?

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