domingo, 11 de julho de 2021

Sukeban Deka: "Como eu odeio a fraqueza!"


Tal como ocorre com o vinho, onde a distância temporal e espacial torna certos exemplares tanto mais saborosos, o mesmo poderia se dizer da arte. Sukeban Deka é uma dessas obras onde o aspecto exótico e antigo a torna tanto mais interessante.

Ao chegar ao ocidente (mais especificamente aos EUA) a obra fora traduzida como Delinquent Girl Detective, o que não está de todo errado. Todavia é oportuno aprofundar um pouco a respeito do fenômeno tipicamente japonês das sukeban. Sob influência do lixo ideológico produzido pela Escola de Frankufurt, os EUA por meio de seu aparato cultural exportou para o mundo a degeneração pós-moderna: culto a juventude, promiscuidade sexual, rebeldia, drogas e feminismo. Ao chegar no Japão, esses anti-valores mesclaram-se com certos elementos marginais da cultura local, impulsionando o fenômeno das gangues juvenis. Surgiram os bancho (ou banchou) e as sukeban, sendo o primeiro termo usado para designar os delinquentes do sexo masculino e o segundo termo referência as moças. E como o Japão é um país de refinado senso artístico, tais grupos apresentavam um visual característico, uma estética própria, e uma organização interna curiosa; de tal forma que pouco depois do surgimento de tais grupos, a cultura pop tratou de dar-lhes um tom folclórico... Essa mitificação de elementos criminosos não é algo específico do Japão, os EUA fizeram o mesmo com a máfia no clássico O Poderoso Chefão, há na cultura popular brasileira um fenômeno análogo ante os cangaceiros de Lampião, e ainda antes de tudo isso houve a mitificação em torno dos antigos piratas, vikings, etc... Voltando as sukeban, inicialmente sua assimilação pela cultura pop japonesa se deu em um mercado nada honroso: a indústria pornográfica. Por algum motivo, os japoneses da época estavam cansados das mocinhas tímidas e submissas e passaram a idealizar essa rebeldia feminina. Um dos principais estúdios que lucrou com esse tipo de filme foi a Toei, que de forma um tanto quanto irônica é hoje um grupo especializado na produção da brinquedos e conteúdo infantil. [A maioria das informações deste parágrafo veio daquele lixo radioativo da Vice, se alguém quiser aprofundar nessa porqueira, segue o link]. Nesse contexto é que pouco tempo depois veio a surgir o mangá Sukeban Deka, que era um seinen, um gênero de mangás dirigido ao público adulto... Mas, alguém teve a brilhante ideia de pegar todo esse contexto complicado e transformar em uma obra juvenil, e assim nasceu o tokusatsu Sukeban Deka (embora alguns o considerem antes como um dorama, eu não entendo muito sobre essas classificações).

De certo modo, a obra subverte a subversão, ao transformar todos esses elementos adultos e marginais em uma forma de entretenimento mais leve, dirigido a um público mais amplo. A obra é protagonizada por Saki Asamiya, uma ex-sukeban em busca de redenção, que agora trabalha para uma organização policial secreta, afim de poupar sua mãe da cadeira elétrica, a qual fora condenada por assassinar o marido. Ao longo da primeira temporada, Saki é transferida (antes infiltrada) em diversas escolas afim de investigar diversos crimes. Afinal, se há ambientes de difícil penetração por um agente policial comum, quem iria desconfiar de uma garotinha do colegial? Ah, e não posso deixar de mencionar o elemento central na caracterização da personagem, seu ioiô. Ioiô? Pois é, ela combate criminosos armadas usando um mero ioiô, e também é capaz de dar mortais, usar poderosos golpes de artes marciais e levantar gente com duas vezes o peso dela. Não me pergunte como, é afinal um tokusatsu, uma série de ação para adolescentes, tipo um Power Rangers, esses elementos não precisam de explicação ou realismo, só está lá para encantar o público. E como não pode faltar em obras desse estilo, a série está recheada de frases de efeito sensacionais: "A trilha desta delinquente Saki Asamiya é uma trilha cheia de ruínas... Agora nesta era de decadência, se eu pudesse rir eu riria"; "Bastardos como vocês que cometem roubo por dinheiro... Para vocês minha alma nunca se rebaixará!".

A primeira temporada de fato surpreende, traz uma reflexões interessantes, tem um bom suspense que vai se aprofundando ao longo dos episódios, e o roteiro chega níveis inimagináveis para o público a qual se dirige (tratando a respeito de temas como estupro, traição e morte), sem falar que a estética dos anos 80, que comtemplada a décadas de distância adquire um charme tanto maior. Minha única crítica é que, apesar de um episódio com vagas referências estéticas ao catolicismo, a obra (tal qual ocorreu como Final Fantasy II) não consegue lidar muito bem a perspectiva cristã do perdão. A vingança e o ''nunca vou te perdoar'' dão o tom ao final da temporada. 

De todo o modo, é uma obra interessante, que vale a pena conferir.

***

Encerro esse texto com um pequeno apêndice descrevendo o sétimo episódio da primeira temporada, que traz uma reflexão interessantíssima sobre a necessidade da virtude da fortaleza:


Uma série de assassinato tem ocorrido com o corpo docente de um famoso colégio de elite. Saki, a Sukeban Deka, uma colegial detive (protagonista da trama) que trabalha para uma organização secreta superior a polícia, é transferida ao colégio, se infiltrando como uma das alunas para investigar o caso. Logo ao chegar na escola, se depara com uma cena estranha, as alunas sendo humilhadas em público, tendo seus cabelos cortados pelos professores na frente de todas as demais, como castigo, por insistirem em tentar reabrir o clube de arco e flecha.

Em conversas posteriores, Saki descobre que o clube fora fundado por um bondoso professor, Monma, e que através do desporto tinha tirado muitos alunas da delinquência, as ajudado a amadurecer e superar problemas pessoais e dramas da juventude. Monma era vítima da inveja dos colegas docentes, que em sua ausência invadiram e vandalizaram o clube. Uma das melhores alunas Yumi, na ocasião tentou defender o clube e assustar os desordeiros, fazendo com que uma flecha passasse de raspão ao rosto de um professor, que usou o episódio para humilha-la, expulsa-la do colégio, e encerrar definitivamente as atividades do clube. De posse de tais informações, Yumi é a principal suspeita, e Saki vai a sua procura. Depois de uma batalha entre as duas evolvendo dardos e ioiô, ambas se tornam amigas e Yumi lhe conta a sua história, e como ela é grata ao Monma e por respeito ao bom caminho que ele lhe ensinou ela resiste ao ímpeto vingativo de dar o troco nos demais professores.

A história avança de modo a revelar que o responsável pelos atentados é o agora demitido professor Monma. Yumi ao descobrir isso dá um jeito de deixar pertences seus na cena do crime afim de assumir a culpa e poupar o professor que tanto admirava. Inconformada com a amiga que sabe inocente levar a culpa, Saki vai atrás do verdadeiro culpado e entra em uma batalha contra Monma. Yumi volta a cena para proteger seu antigo professor. Saki derrota Yumi e confronta Monma. Pensa numa guria brava, Saki no diálogo em meio a batalha diz ao professor como ele foi fraco, como traiu os ideais de educação que ele defendida caindo facilmente no caminho da ira, como não só  apenas não foi capaz de proteger as alunas mas fez uma delas entrar em perigo por sua causa. O professor está insensível,  louco de raiva que não pensa em mais nada senão atirar flechas. No fim Saki derrota o infeliz e vai embora com raiva dele e da Yumi. De nada adianta belos ideais sem força para defendê-los... Monma não foi capaz de proteger nem a si mesmo, nem suas alunas, colocando-as em maior perigo. Sua derrota e desmoralização também serviriam para manchar seus ideais e dar razão aos demais professores imbecis que maltratam as alunas, que saíram todos impunes.



Saki odeia a fraqueza. Quiçá façamos nós o mesmo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário