domingo, 29 de agosto de 2021

Monstros


Habitualmente se dinstinguía entre monstruos y demonios, pero también podán fusionarse. Los monstruos era, supuestamente, seres humanos distorsionados, aunque se dudaba de si tenían alma. Se los suponía creados para mostrar a los humanos cómo es la privacíon física de Dios. F. Gagnon ha sugerido creíblemnete que los monstruos encajan en la cadena ontológica del ser que se extiende desde Dios hacia una realidade cada vez menor. Dios, los ángeles, los governantes humanos, los súbditos humanos, los bárbaros, los monstruos, los demonios, el Anticristo, Lucifer. Los monstruos tienen privaciones físicas: son gigantes, enanos, tienen tres ojos o niguno, o tienen caras en el vientre. Esta clase de privación física es un signo de su privación ontológica que se transmuta fácilmente en privación moral. Su deformidad se fusiona con la del diablo, el más retorcido y depravado de todos los seres. Sin enbargo, hablando en propiedad, los monstruos no son demonios, sino están separados de ellos por al menos un paso; Dios los hizo monstruos y por tanto comparten en algún grado, por pequeño que sea, la bondad y la belleza. Un monstruo particularmente persistente y siniestro es el hombre-animal. Essa clase de seres se encuntran en la mayor parte de las culutras (en la India, por ejemplo, hay hombres tigres, pero en Europa, donde prevalecen los lobos, hay hombres lobo). También se encuentran vampiros en todas partes. Los hombres-animal no son lo mismo que otros montruos, porque sua monstruosidad consiste menos en su deformidad física que en su capacidad demoníaca de cambiar de forma; y mientras los monstruos puden ser moralmente ambivalentes, los hombres-animal son essencialmente malos. Ele diabo es el jefe de los hombres que cambian de forma; los hombres-lobo, los vampiros y las brujas imitan a su señor en esa caulidad para haver la voluntad del diablo.

- Jeffrey Burton Russell. Lucifer: El Diablo en La Edad Media; p.86-87.

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O voto de Jefté


20ª Semana do Tempo Comum | Quinta-feira
Primeira Leitura (Jz 11,29-39a)
Responsório (Sl 39)
Evangelho (Mt 22,1-14)

A primeira leitura de hoje é uma das passagens mais misteriosas e perturbadoras da Sagrada Escritura, estou realmente surpreso que os liturgistas escolheram proclamá-la, eu não teria tanta confiança assim na capacidade dos pregadores de torná-la compreensível ao povo...

Jefté, juiz de Israel, faz um voto ao Senhor: caso lhe fosse concedida a vitória sobre os amonitas, ele ofereceria quando voltasse para casa a primeira coisa que viesse ao seu encontro como holocausto. Quem veio ao encontro de Jefté foi ninguém menos que sua própria filha. A corrente exegética majoritária tende a interpretar a cena em toda a sua literalidade. Jefté, de fato, oferecido sua filha como sacrifício humano. Tal é a interpretação do Padre Matos Soares, segundo o sacerdote: 
 
O espírito do Senhor excita Jefté a reunir gente e o anime à vitória, mas não, por certo, a fazer o voto de sacrifício humano, proibido pela Lei. O voto foi insensato e ímpio, e mantê-lo foi um delito. Quiçá Jefté agiu de boa fé e julgou-se obrigado ao voto depois da vitória estrepitosa. Não devemos esquecer também a sua falta de cultura.

A incultura de Jefté aliada a uma visão errônea da religião, adquirida com o convívio com os povos do entorno, teria sido causa de tal tragédia. É amargo pensar como um homem bom, alguém que fora de fato um herói para Israel cometeu tal delito; como sua inteligência de tal modo fora obscurecida a ponto de cometer tal ato, violando não só o bom senso como a própria lei veterotestamentária que proibia sacrifícios humanos; julgando estar prestando um culto a Deus. Quiçá isso  nos sirva de alerta a cerca do dever de alimentar nossa inteligência afim de adquirir uma correta visão a respeito de nossa religião, sem deixar-nos contaminar pelos erros de nosso tempo.

Devo citar, porém, que existe uma segunda corrente exegética minoritária a respeito de tal passagem, defendida sobretudo por teólogos protestantes. Tal interpretação tende a diminuir a gravidade do ocorrido, afirmando tratar-se não de um sacrifício humano, mas de uma espécie de consagração monástica de dedicação integral ao serviço divino para dedicar a vida ao Senhor, associada também ao celibato. A dramaticidade da passagem, em tal perspectiva, ficaria por conta de que, entregando sua única filha a serviço do Senhor, Jefté ficaria privado de herdeiros não vendo a perpetuação de sua casa [o que, contudo, também ocorreria primeiro caso].

terça-feira, 10 de agosto de 2021

Chá, Guerra do Ópio e Digimon Tamers


Liu I-ming, erudito taoísta, nascido em 1734 e falecido em 1860, observara o paradoxo em torno do bicho-da-seda e da abelha, que na busca da própria felicidade acabam por semear a própria morte[1]:
O Casulo do Bicho-da-seda, o Mel da Abelha

Os bichos-da-seda originalmente tecem o seu casulo para se protegerem, sem saberem que as pessoas os matarão por causa dele. As abelhas originalmente produzem mel para se alimentarem, sem saberem que as pessoas vão tirar-lhes a vida por causa dele. Essas criaturas querem melhorar a própria vida, mas, fazendo isso, apressam a própria morte.
O que percebo quando observo isso é o Tao da interdependência entre o benefício e o prejuízo.
Todas as pessoas temem a morte e, por isso, procuram viver. Como procuram viver, têm de fazer alguma coisa a respeito da comida e da roupa. Elas passam os dias trabalhando mental e fisicamente no mundo comum, acumulando dinheiro e gêneros para enriquecerem a própria vida.
As pessoas comuns deveriam considerar isso o bastante para viverem, mas não percebem que isso não é o bastante para se viver de fato. Na verdade, isso termina por apressar a morte.
Como sabemos que é assim? Quanto maior a seriedade das pessoas com o ganhar a vida, tanto menor a sua seriedade com a preservação do corpo. Trabalham dia e noite, o que provoca danos desconhecidos à sua vitalidade e ao seu espírito, deteriorando sua energia e sua circulação. Elas já entraram no caminho da morte.
Há outro tipo de pessoa que não sabe o que traz morte e o que traz vida. Diante de centenas de doenças, pela manhã essas pessoas não têm certeza da noite, mas não conseguem deixar de lado a comida e a roupa, desejando cada vez mais quanto mais envelhecem, não despertando até morrerem, padecendo de confusão até o fim.
Essas pessoas são como bichos-da-seda, que produzem a própria morte ao tecerem um casulo, como abelhas, que produzem a própria morte ao produzirem o mel.
As pessoas de grande sabedoria têm um modo diferente de preservar a vida. Elas não mantêm a mente concentrada na comida e na roupa, não têm a atenção concentrada em ganhos materiais. Elas renunciam à riqueza do mundo para acumular riqueza espiritual, deixam de lado o corpo material para alimentar o corpo verdadeiro. Como nada as pode afetar, o que as pode beneficiar ou prejudicar?

Coincidência ou profecia, tal como a abelhas e o bicho-da-seda, assim se comportou a China Imperial em suas relações com o Império Britânico: o chá do produzido no oriente encantou os ingleses, eram toneladas e toneladas de folhas importadas pela Companhia das Índias Orientais. Todavia, os nativos desdenhavam dos produtos europeus; salvo por um encanto passageiro com relógios e autômatos, nenhuma mercadoria inglesa interessava aos chineses,  o que gerava um saldo comercial extremamente  desfavorável aos anglo que encontraram no ópio um meio de equilibrar as coisas. A droga, proibida pelo governo chinês - por motivos óbvios - gerava fartas receitas, de forma que a companhia inglesa, por meio de um engenhoso esquema de laranjas abastecia os traficantes locais. O dinheiro obtido, ironicamente, acabava por retornar a China para a compra do chá. Quando o governo chinês resolve tomar medidas mais rígidas, com vistas à extirpar o tráfico internacional e conter a crise social gerada pela proliferação da droga, eis que a Inglaterra mobiliza suas frotas a fim de defender ''o livre comércio'' e as ''liberdades individuais'' de lucrar desgraçando a vida dos chineses.  Tal como o mel produzido pela abelha e o casulo do bicho-da-seda, alvos de humana cobiça e causa para de infinitas desgraças aos seus produtores, assim ocorreu o chá na conflituosa história das relações China e Inglaterra. De certo modo, a história, hoje, se remete uma vez...


Ok, talvez seja exagero comparar a guerra do ópio ao cancelamento de Digimon Tamers, mas eu não podia perder a oportunidade de relacionar minhas últimas leituras a polêmica da semana 😁 . Digimon Tamers não é apenas a melhor temporada de Digimon, mas figura entre os melhores animes da face da terra (talvez esteja exagerando uma vez mais) e eu ainda pretendo escrever a respeito, mas o assunto não é tanto a obra original como um especial lançado a poucos dias (isso é se você estiver lendo isso em uma data próxima daquela em que escrevo este texto). Em comemoração aos 20 anos do anime, o roteirista Chiaki Konaka organizou com os dubladores originais uma espécie de breve sequência que fora apresentada em forma de áudio na Digifest apenas para o mercado japonês. Nessa nova aventura, os tamers devem enfrentar uma nova entidade digital, nascida através das interações humanas na internet:


Irritados com a vaga menção do Politicamente Correto e a Cultura do Cancelamento e a singela sugestão que seu comportamento fosse inadequado, e tivesse alguma reação com o mal, eis que os lacradores ocidentais se mobilizaram para cancelar Digimon Tamers 2021 e Chiaki Konaka, infernizando a vida do japonês no twitter com calúnias difamatórias, a ponto de obrigá-lo a pedir desculpas. Eu até entendo que o Konaka só queira sossego, mas fiquei triste por ter cedido tão facilmente aos bastardos do pôr do sol. Seja como for, para além de um fenômeno isolado, o episódio é mais um de inúmeros marcos daquilo que considero o fim da indústria do anime como conhecemos. Tal como chá caiu no gosto dos ingleses, o entretenimento oriental conquistou o oriente, e este mercado estrangeiro acabara por impor padrões e castrar a criatividade dos autores locais. Como os ingleses destruíram a China para obter seu precioso chá, assim o ocidente está a destruir a indústria de animes a fim de adaptá-los a sua sensibilidade degenerada, chegará o tempo em que as garotinhas fofinhas serão substituídas por machorras lésbicas empoderadas e outras bobagens análogas. 

Para mim, o entretenimento japonês serve como uma espécie de refúgio, um modo de alimentar minha imaginação e me divertir e ao mesmo tempo manter uma saudável distância ao lixo ignominioso que é o entretenimento ocidental contemporâneo. É provável que as gerações posteriores não tenham mais esse refúgio...

A lição que fica é o sugestivo título de um livro distributista, o qual ainda não li (será que deveria ter mesmo dito isto? Talvez se fingisse que li e falasse de forma empolada, como um restaurador da alta cultura, esse blog tivesse mais visitas, se bem que, como vão notar pelo fim deste parágrafo isso me causaria problemas...), a saber:  O negócio é ser pequeno. Não atoa os sábios escondem seus tesouros... Quando algo se torna demasiado conhecido, acaba se tornando objeto de cobiça e invariavelmente acarretando desgraças a seu portador.

***

P.S. Eu poderia ter encerrado o texto ali em cima (e talvez  devesse), mas creio que deveria notar certo aspecto contraditório de minha posição. De certo modo eu tenho acesso ao chá e ao entretenimento japonês porque tais elementos cresceram a ponto de ecoar para além de seu ambiente originário. É possível que esteja sendo meio hipster ao querer privar os demais deste nicho que me trouxe não poucas alegrias, mas julgo que meu consumo é civilizado, enquanto o deles predatório, degenerado e imperialista. 

Referências:
[1] O Despertar do Tao - Liu I Ming

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

"A nuvem e a escuridão estão ao redor dele"


Transfiguração do Senhor | Sexta-feira
Primeira Leitura (Dn 7,9-10.13-14)
Responsório (Sl 96)
Evangelho (Mc 9,2-10)

<A nuvem e a escuridão estão ao redor dele; justiça e equidade são a base do seu trono (Sl 96, 2)>

<Formou-se uma nuvem que os cobriu com sua sombra. (Mc 9, 7)>

O Papa João Paulo II classifica a transfiguração como mistério luminoso. Em tal acontecimento, a luz da divindade de Cristo se torna visível, sua mensagem, sua natureza se manifestam com uma clareza sem igual. No entanto, pretendo hoje falar de sombra e escuridão. Nossa cultura tende a associar tais elementos ao Diabo, como se Deus tivesse criado tão somente o dia e a noite fosse o festim dos demônios. Não é assim. Há certa poesia na penumbra.

Dom Marcel Lefebvre nota que o mais admirável do mistério da Transfiguração não é que Cristo tenha mostrado aos apóstolos sua natureza divina, mas antes que a tenha ocultado durante praticamente toda sua vida terrestre. A sombra do Pai é o título do livro de Jan Dobraczyński dedicado a São José. O ápice da arte barroca nas obras de Caravaggio tem como marca distinta o contraste entre luz e sombra; a degeneração do barroco em Rococó se dá precisamente quando o elemento sombrio desaparece da pintura, dando lugar a uma luminosidade piegas. As próprias passagens bíblicas que hoje lemos mencionam a escuridão sob o trono do altíssimo e a sombra da nuvem que cobre os apóstolos antes da manifestação do Pai.

Discrição e silêncio são as características da sombra. Como numa pintura barroca, em tal cenário a luz divina brilha como nunca. Conseguiremos nós apagar as luzes vulgares desta civilização decadente, apartar-nos de tanta agitação, exibicionismo e barulho, e - de modo metafórico -  retirar-nos para o monte, onde cobertos pela sombra da nuvem, sob escuridão que cerca o trono do Altíssimo nos cobrirá, e poderemos então contemplar seus mistérios e escutar a sua voz?

Diz-se que vivemos tempos sombrios, creio eu que é tanto pior. Estamos imersos numa luminosidade artificial e invasiva, que nos impede de desfrutar da poesia da noite e contemplar o brilho das estrelas.