sexta-feira, 6 de agosto de 2021

"A nuvem e a escuridão estão ao redor dele"


Transfiguração do Senhor | Sexta-feira
Primeira Leitura (Dn 7,9-10.13-14)
Responsório (Sl 96)
Evangelho (Mc 9,2-10)

<A nuvem e a escuridão estão ao redor dele; justiça e equidade são a base do seu trono (Sl 96, 2)>

<Formou-se uma nuvem que os cobriu com sua sombra. (Mc 9, 7)>

O Papa João Paulo II classifica a transfiguração como mistério luminoso. Em tal acontecimento, a luz da divindade de Cristo se torna visível, sua mensagem, sua natureza se manifestam com uma clareza sem igual. No entanto, pretendo hoje falar de sombra e escuridão. Nossa cultura tende a associar tais elementos ao Diabo, como se Deus tivesse criado tão somente o dia e a noite fosse o festim dos demônios. Não é assim. Há certa poesia na penumbra.

Dom Marcel Lefebvre nota que o mais admirável do mistério da Transfiguração não é que Cristo tenha mostrado aos apóstolos sua natureza divina, mas antes que a tenha ocultado durante praticamente toda sua vida terrestre. A sombra do Pai é o título do livro de Jan Dobraczyński dedicado a São José. O ápice da arte barroca nas obras de Caravaggio tem como marca distinta o contraste entre luz e sombra; a degeneração do barroco em Rococó se dá precisamente quando o elemento sombrio desaparece da pintura, dando lugar a uma luminosidade piegas. As próprias passagens bíblicas que hoje lemos mencionam a escuridão sob o trono do altíssimo e a sombra da nuvem que cobre os apóstolos antes da manifestação do Pai.

Discrição e silêncio são as características da sombra. Como numa pintura barroca, em tal cenário a luz divina brilha como nunca. Conseguiremos nós apagar as luzes vulgares desta civilização decadente, apartar-nos de tanta agitação, exibicionismo e barulho, e - de modo metafórico -  retirar-nos para o monte, onde cobertos pela sombra da nuvem, sob escuridão que cerca o trono do Altíssimo nos cobrirá, e poderemos então contemplar seus mistérios e escutar a sua voz?

Diz-se que vivemos tempos sombrios, creio eu que é tanto pior. Estamos imersos numa luminosidade artificial e invasiva, que nos impede de desfrutar da poesia da noite e contemplar o brilho das estrelas. 

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