terça-feira, 10 de agosto de 2021

Chá, Guerra do Ópio e Digimon Tamers


Liu I-ming, erudito taoísta, nascido em 1734 e falecido em 1860, observara o paradoxo em torno do bicho-da-seda e da abelha, que na busca da própria felicidade acabam por semear a própria morte[1]:
O Casulo do Bicho-da-seda, o Mel da Abelha

Os bichos-da-seda originalmente tecem o seu casulo para se protegerem, sem saberem que as pessoas os matarão por causa dele. As abelhas originalmente produzem mel para se alimentarem, sem saberem que as pessoas vão tirar-lhes a vida por causa dele. Essas criaturas querem melhorar a própria vida, mas, fazendo isso, apressam a própria morte.
O que percebo quando observo isso é o Tao da interdependência entre o benefício e o prejuízo.
Todas as pessoas temem a morte e, por isso, procuram viver. Como procuram viver, têm de fazer alguma coisa a respeito da comida e da roupa. Elas passam os dias trabalhando mental e fisicamente no mundo comum, acumulando dinheiro e gêneros para enriquecerem a própria vida.
As pessoas comuns deveriam considerar isso o bastante para viverem, mas não percebem que isso não é o bastante para se viver de fato. Na verdade, isso termina por apressar a morte.
Como sabemos que é assim? Quanto maior a seriedade das pessoas com o ganhar a vida, tanto menor a sua seriedade com a preservação do corpo. Trabalham dia e noite, o que provoca danos desconhecidos à sua vitalidade e ao seu espírito, deteriorando sua energia e sua circulação. Elas já entraram no caminho da morte.
Há outro tipo de pessoa que não sabe o que traz morte e o que traz vida. Diante de centenas de doenças, pela manhã essas pessoas não têm certeza da noite, mas não conseguem deixar de lado a comida e a roupa, desejando cada vez mais quanto mais envelhecem, não despertando até morrerem, padecendo de confusão até o fim.
Essas pessoas são como bichos-da-seda, que produzem a própria morte ao tecerem um casulo, como abelhas, que produzem a própria morte ao produzirem o mel.
As pessoas de grande sabedoria têm um modo diferente de preservar a vida. Elas não mantêm a mente concentrada na comida e na roupa, não têm a atenção concentrada em ganhos materiais. Elas renunciam à riqueza do mundo para acumular riqueza espiritual, deixam de lado o corpo material para alimentar o corpo verdadeiro. Como nada as pode afetar, o que as pode beneficiar ou prejudicar?

Coincidência ou profecia, tal como a abelhas e o bicho-da-seda, assim se comportou a China Imperial em suas relações com o Império Britânico: o chá do produzido no oriente encantou os ingleses, eram toneladas e toneladas de folhas importadas pela Companhia das Índias Orientais. Todavia, os nativos desdenhavam dos produtos europeus; salvo por um encanto passageiro com relógios e autômatos, nenhuma mercadoria inglesa interessava aos chineses,  o que gerava um saldo comercial extremamente  desfavorável aos anglo que encontraram no ópio um meio de equilibrar as coisas. A droga, proibida pelo governo chinês - por motivos óbvios - gerava fartas receitas, de forma que a companhia inglesa, por meio de um engenhoso esquema de laranjas abastecia os traficantes locais. O dinheiro obtido, ironicamente, acabava por retornar a China para a compra do chá. Quando o governo chinês resolve tomar medidas mais rígidas, com vistas à extirpar o tráfico internacional e conter a crise social gerada pela proliferação da droga, eis que a Inglaterra mobiliza suas frotas a fim de defender ''o livre comércio'' e as ''liberdades individuais'' de lucrar desgraçando a vida dos chineses.  Tal como o mel produzido pela abelha e o casulo do bicho-da-seda, alvos de humana cobiça e causa para de infinitas desgraças aos seus produtores, assim ocorreu o chá na conflituosa história das relações China e Inglaterra. De certo modo, a história, hoje, se remete uma vez...


Ok, talvez seja exagero comparar a guerra do ópio ao cancelamento de Digimon Tamers, mas eu não podia perder a oportunidade de relacionar minhas últimas leituras a polêmica da semana 😁 . Digimon Tamers não é apenas a melhor temporada de Digimon, mas figura entre os melhores animes da face da terra (talvez esteja exagerando uma vez mais) e eu ainda pretendo escrever a respeito, mas o assunto não é tanto a obra original como um especial lançado a poucos dias (isso é se você estiver lendo isso em uma data próxima daquela em que escrevo este texto). Em comemoração aos 20 anos do anime, o roteirista Chiaki Konaka organizou com os dubladores originais uma espécie de breve sequência que fora apresentada em forma de áudio na Digifest apenas para o mercado japonês. Nessa nova aventura, os tamers devem enfrentar uma nova entidade digital, nascida através das interações humanas na internet:


Irritados com a vaga menção do Politicamente Correto e a Cultura do Cancelamento e a singela sugestão que seu comportamento fosse inadequado, e tivesse alguma reação com o mal, eis que os lacradores ocidentais se mobilizaram para cancelar Digimon Tamers 2021 e Chiaki Konaka, infernizando a vida do japonês no twitter com calúnias difamatórias, a ponto de obrigá-lo a pedir desculpas. Eu até entendo que o Konaka só queira sossego, mas fiquei triste por ter cedido tão facilmente aos bastardos do pôr do sol. Seja como for, para além de um fenômeno isolado, o episódio é mais um de inúmeros marcos daquilo que considero o fim da indústria do anime como conhecemos. Tal como chá caiu no gosto dos ingleses, o entretenimento oriental conquistou o oriente, e este mercado estrangeiro acabara por impor padrões e castrar a criatividade dos autores locais. Como os ingleses destruíram a China para obter seu precioso chá, assim o ocidente está a destruir a indústria de animes a fim de adaptá-los a sua sensibilidade degenerada, chegará o tempo em que as garotinhas fofinhas serão substituídas por machorras lésbicas empoderadas e outras bobagens análogas. 

Para mim, o entretenimento japonês serve como uma espécie de refúgio, um modo de alimentar minha imaginação e me divertir e ao mesmo tempo manter uma saudável distância ao lixo ignominioso que é o entretenimento ocidental contemporâneo. É provável que as gerações posteriores não tenham mais esse refúgio...

A lição que fica é o sugestivo título de um livro distributista, o qual ainda não li (será que deveria ter mesmo dito isto? Talvez se fingisse que li e falasse de forma empolada, como um restaurador da alta cultura, esse blog tivesse mais visitas, se bem que, como vão notar pelo fim deste parágrafo isso me causaria problemas...), a saber:  O negócio é ser pequeno. Não atoa os sábios escondem seus tesouros... Quando algo se torna demasiado conhecido, acaba se tornando objeto de cobiça e invariavelmente acarretando desgraças a seu portador.

***

P.S. Eu poderia ter encerrado o texto ali em cima (e talvez  devesse), mas creio que deveria notar certo aspecto contraditório de minha posição. De certo modo eu tenho acesso ao chá e ao entretenimento japonês porque tais elementos cresceram a ponto de ecoar para além de seu ambiente originário. É possível que esteja sendo meio hipster ao querer privar os demais deste nicho que me trouxe não poucas alegrias, mas julgo que meu consumo é civilizado, enquanto o deles predatório, degenerado e imperialista. 

Referências:
[1] O Despertar do Tao - Liu I Ming

Nenhum comentário:

Postar um comentário