quarta-feira, 24 de novembro de 2021

"É nesse momento que a natureza termina e a ecologia começa"


[...] Contudo, e para irmos direto ao ponto, deixaremos essa questão em suspenso com um veredito de Marshall McLuhan, que disse em uma entrevista de 1974 que “a Sputnik criou um novo ambiente para o planeta. Pela primeira vez o mundo natural foi completamente encerrado dentro de um recipiente construído pelo homem. No momento em que a Terra adentra esse novo artefato, a Natureza termina e a Ecologia começa. O pensamento ‘ecológico’ passou a ser inevitável assim que o planeta ascendeu ao status de obra de arte”. Esse veredito de McLuhan precisa ser analisado mais a fundo. O evento de 1957 – isto é, o lançamento da Sputnik pela União Soviética – representa a primeira vez em que os seres humanos puderam refletir sobre a Terra a partir de fora, e, nesse aspecto, a Terra, com a ajuda da tecnologia espacial, passa a ser vista principalmente como um artefato. Em A condição humana, Hannah Arendt também descreve o lançamento da Sputnik como aquele que “em importância ultrapassa todos os outros, até mesmo a desintegração do átomo”, porque sugere, como disse Konstantin Tsiolkovsky, que “a humanidade não permanecerá para sempre presa à Terra”. Essa independência com relação à Terra coloca a humanidade diretamente em confronto com a infinitude do universo e a prepara para um niilismo cósmico. É nesse momento que a natureza termina e a ecologia começa. Em contraste com o sentido dado por Ernst Haeckel ao termo “ecologia” no fim do século XIX, entendido então como a totalidade de relações entre um ser vivo e o ambiente em que ele está inserido, e também com a definição dada por Von Uexküll de ecologia como um processo de seleção do Umgebung (o ambiente físico) para o Umwelt (a “intepretação” do mundo pelo ser vivo), aquilo a que McLuhan se refere é a perda do caráter biológico da ecologia. De acordo com McLuhan, a Terra passa a ser considerada um sistema cibernético monitorado e governado por máquinas que se encontram tanto em sua superfície quanto no espaço sideral. O que testemunhamos é o desaparecimento da Terra, já que a continuidade do planeta é absorvida para o interior de um plano de imanência construído pelo pensamento recursivo da cibernética.

- Yuk Hui. Tecnodiversidade, p.80-81.

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