terça-feira, 16 de novembro de 2021

O fogo bravo, a maldição da cadela e a santa milagreira

Uma das principais características da era digital é aquilo que chamo de desterritorialização: uma ruptura profunda entre o indivíduo e seu local de origem. Ante o fluxo constante de informação provenientes de centros de difusão remotos e a imersão cada vez mais frequente no "mundo digital" a realidade local perde importância. E isso é só o começo, dado a expansão do home office e das criptomoedas até mesmo os laços econômicos com a terra tornar-se-ão ainda mais frágeis. Talvez algum nacionalista ou nostálgico esteja interessado em empreender uma luta romântica - e em certo sentido inútil - contra tais processos, a mim, porém, isso não parece de todo ruim. Seja como for, ainda sob uma nova era, certas verdades permanecem: a teologia cristã ensina que cada cidade é guardada por um anjo em particular e os povos antigos sempre distinguiram qualidades próprias da terra, como se cada aglomerado urbano tivesse uma vocação e um destino particular, a qual seria a sua história a chave para decifrá-lo. Se a importância econômica e cultural do entorno tende a diminuir com o avanço da técnica, quem sabe isto não possa vir a ser compensado por uma redescoberta de seu papel mítico e folclórico? Neste sentido comento aqui algumas histórias, talvez alguma delas possa vir a inspirar a devoção do leitor ou ao menos a curiosidade, e quem sabe motivá-lo a investigar também a história de sua própria terra:

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A Fundação de Barretos e o Fogo Bravo

A cidade onde nasci fora inicialmente propriedade de uma família, a terra dos Barreto, adquirida pelo patriarca Francisco Barreto após anos de serviço tenente Francisco Antônio Junqueira. As vésperas da morte, Francisco Barreto manifestara o desejo de doar uma parcela de suas terras a Igreja, para a construção de uma capela. Desejo este que fora concretizado por seus filhos que fizeram a oferta em honra a Divino Espírito Santo, em a 25 de agosto de 1854. Pouco tempo depois iniciou-se a edificação da capela e, com a vinda de um padre para o local, este longínquo arraial fora atraindo diversos moradores. Lendas locais, porém, falam de um fenômeno climático ocorrido pouco tempo depois: o fogo bravo. Narram as crônicas que por volta do ano de 1870 uma “geada brava” teria queimado as folhas e os ramos de toda região do “Arraial dos Barreto”. Pouco tempo depois teria ocorrido o “fogo bravo”, um gigantesco incêndio causado pelas labaredas das queimadas que preparavam o solo para a lavoura na região, devastando a densa floresta que cercava o arraial. O fogo teria tornado o solo propício às pastagens e aberto os caminhos para novos povoadores vindos do Triângulo Mineiro, que procuravam as pastagens recém-formadas para criação de gado, o que teria sido responsável por um estrondoso crescimento econômico e populacional - para os padrões da época - do local. Alguns estudiosos locais viram um paralelo entre o fogo bravo e uma antiga lenda indígena a respeito do Fogo Universal, segundo a qual que a terra inteira foi devastada por total incêndio, para depois ressurgir em “Novo Mundo”.  

A família nuclear e o catolicismo foram pois os alicerces fundacionais da cidade, o que não é um privilégio de Barretos, mas é algo compartilhado por várias cidades do Brasil. A história do fogo bravo parece ecoar a ideia do caos criador, a perspectiva de que sob as cinzas do mundo antigo emerge uma nova perspectiva, um mundo novo, como que purificado dos vícios de outrora. Não seria possível derivar daí certa filosofia da história?

A Maldição da Cadela

Há  há uma lenda envolvendo o primeiro vigário barretense que se chamava Henrique Sassi (vigário em 1877 – 1880). O padre possuía uma cachorrinha pela qual era muito afeiçoado. Após a morte desta, o padre mandou enterrá-la no cemitério local. Um dia, o coveiro quando trabalhava no cemitério ouviu uma voz saindo das profundezas do chão: “- Vocês me enterraram em lugar sagrado. Agora, Barretos, por castigo, vai afundar”. Dentro de pouco tempo, toda a pequena comunidade comentava as consequências do ato praticado a mando do vigário. A cidade, todavia, não afundou e a história logo foi esquecida... Embora, caso se queira "salvar" a profecia, poder-se-ia interpretar tais palavras de forma metafórica, e relacionar o declínio da influência da Igreja, a proliferação de falsas religiões e sobretudo o fortalecimento da maçonaria como consequências de tal acontecimento. 

A Santinha do Ibitu 

Um dos túmulos mais visitados do cemitério local é o da jovem Maria Conceição do Ibitu - Ibitu é um distrito rural do município - , assassinada aos 16 anos de idade pelo padrasto em 10 de março de 1942. Seu o padrasto Antonio Pires Cordeiro havia se apaixonado por ela e, diante das negativas às suas declarações de amor acabou esfaqueando-a. Lendas contam que o local onde o corpo fora encontrado, mesmo depois de recolhido, continuava a sair sangue vivo quando lavado. Outra versão conta que chegado o corpo a Barretos, o médico legista não conseguiu retirar a faca, sendo que o mesmo só foi conseguido pelo assassino. Devido à forma trágica que essa jovem foi assassinada, sua história acabou popularizando-a como a “santinha do Ibitu” . Décadas depois da tragédia o episódio ainda é recordado e muitos devotos alegam de conseguido graças e curas por intercessão da mesma. 

A história da jovem - embora trágica - não me parece guardar nenhum testemunho de virtude heroica, embora talvez os fenômenos citados, a longevidade do culto popular e os milagres alegados possam talvez sinalizar algo mais. Seja como for, o clero local parece não estar muito interessado nisto e tem já seus próprios candidatos a canonização. 

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Pena que não há nada sobre Sacis e Lobisomens, ainda que fossem histórias de credibilidade questionável, costumam ser um tanto quanto interessantes...


Referências:
- ARMANI et al. Descobrindo Barretos. Editora Liverpool Editora; 2012.

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