quarta-feira, 16 de março de 2022

Impresso x Digital

[...] A pesquisadora norueguesa Anne Mangen está investigando as diferenças cognitivas e afetivas entre a leitura de textos em versão impressa e na tela, com seus colegas Adriaan van der Weel, JeanLuc Velay, Gerard Olivier e Pascal Robinet. Os pesquisadores pediram a estudantes que respondessem um questionário após ler um conto com apelo universal sobre estudantes (uma história de amor francesa, cheia de sensualidade). Metade dos estudantes leram Jenny, Mon Amour num Kindle e a outra metade num livro de bolso.

Os resultados indicaram que os estudantes que tinham lido o livro superavam os leitores de tela na capacidade de reconstruir o enredo em ordem cronológica. Em outras palavras, o sequenciamento de certos detalhes que, às vezes, são ignorados numa história de ficção, foram descartados pelos estudantes que leram na tela. Pense o que aconteceria nos contos de O. Henry se você sobrevoasse os detalhes – como o da esposa que corta e vende seu cabelo para comprar um relógio de bolso para o marido enquanto este estava vendendo seu amado relógio para dar a ela um pente para seu lindo cabelo. A hipótese de Mangen e de um número crescente de pesquisadores é de que há uma tendência na leitura de tela de ler por alto, pular e fazer buscas. E que também na tela fica ausente a dimensão espacial e concreta do livro, que indica onde estão as coisas.

Ainda não está esclarecido como tudo isso afeta a compreensão dos estudantes. Alguns estudos recentes não encontraram diferenças significativas decorrentes da mídia na compreensão geral, pelo menos quando o texto é relativamente breve. Outros estudos, notadamente de pesquisadores israelenses, mostram diferenças mais específicas que dão vantagem à leitura no impresso, quando o tempo é levado em conta. Liu questiona se o comprimento dos textos poderia explicar os resultados diferentes entre os estudos feitos até o momento e se textos mais longos resultariam em desempenhos mais diversificados.

O que se pode afirmar, neste momento, é que, na pesquisa liderada por Mangen, o sequenciamento da informação e a lembrança dos detalhes mudam para pior quando os sujeitos leem na tela. Andrew Piper e David Ulin sustentam que a capacidade de sequenciar é importante – no mundo físico como na página impressa, embora menos nos dispositivos digitais. Na leitura como na vida, insiste Piper, os seres humanos precisam de uma “noção do caminho”, um conhecimento de onde se encontram no tempo e no espaço, noção essa que, sempre que necessário, permite que retomem questões inúmeras vezes e aprendam com elas. Piper se refere a isso como tecnologia da recorrência. 

Partindo de uma perspectiva muito diferente em seu instigante ensaio “Losing Our Way in the World”, o físico da Universidade de Harvard John Huth escreve sobre a importância mais universal de sabermos onde estamos no tempo e no espaço e sobre o que acontece quando não conseguimos conectar os detalhes desse conhecimento num quadro maior. “Muitas vezes, infelizmente, atomizamos o conhecimento em fragmentos que não têm lugar próprio num contexto conceitual mais amplo. Quando isso acontece, cedemos o sentido aos guardiães do conhecimento e ele perde seu valor pessoal”.

A questão que surge é se a diminuição desse conhecimento físico nos meios digitais – a sensação de estar ao mesmo tempo alhures e em lugar nenhum na tela – afeta negativamente o modo como os leitores captam os detalhes daquilo que leem e, num nível mais profundo, o modo como alcançam esse lugar quase palpável para onde a leitura pode transportarnos. O crítico literário Michel Dirda usa essa dimensão física para dirigir nossos pensamentos a algo muito mais profundo na experiência de ler. Depois de comparar a leitura eletrônica de livros com uma estadia em quartos assépticos de hotel, ele faz esta comparação comovente: “Os livros são um lar – coisas físicas reais que podemos amar e curtir”. A natureza fisicamente real dos livros contribui para nossa capacidade de entrar num espaço em que podemos morar sem ser julgados, com nossos pensamentos e emoções multifacetadas conquistados a duras penas, sentindo que encontramos nosso caminho para casa.

Nesse sentido, a materialidade proporciona algo que é tangível tanto de um ponto de vista psicológico quanto táctil. Piper, Mangen e a estudiosa da literatura Karin Littau elaboram isso dando ênfase ao papel inesperado que o toque exerce sobre o modo como abordamos as palavras e as compreendemos, no texto como um todo. Segundo Piper, a dimensão sensorial da leitura do texto impresso acrescenta à informação uma redundância importante – acrescenta às palavras uma espécie de “geometria” – e isso contribui para nossa compreensão global do que lemos. [...]

- Maryanne Wolf; O cérebro no mundo digital : os desafios da leitura na nossa era; p.93-95

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