quarta-feira, 6 de abril de 2022

Gosick e a sublimidade da ideia ante a mediocridade do real

Nem sempre consigo expressar-me adequadamente os sentimentos e reflexões que experimento enquanto assisto um anime. Há obras maravilhosas que tive o prazer de acompanhar, todavia, ainda não consegui escrever uma linha a respeito, e há tantas outras sobre as quais escrevi e que todavia o texto é tão medíocre que não é capaz de expressas nem sequer um relance da profundidade das mesmas. Tenho a impressão de que esta postagem terá o mesmo destino.

Gosick é um anime de 2011 que mistura romance, drama e mistério. Acompanhamos a vida de Kazuya Kujo, um estudante de intercâmbio vindo do Japão para Sabure - um fictício país europeu - e sua amizade Victórica (ou Victorique) de Blois. Uma linda garota que possuí uma inteligência fora do comum e é frequentemente requisitada pelo inspetor Grevil para auxiliar a polícia na resolução de diversos crimes e mistérios. Os primeiros capítulos são relativamente inocentes, cuidando de apresentar os personagens, explorar as relações e a convivência entre eles, bem como a resolução dos mistérios, uma dinâmica que não por coincidência lembra bastante a série de livros Sherlock Holmes. Daqui para frente teremos alguns spoliers. Conforme a história avança, para além dos mistérios da semana, se vai revelando a trama de fundo: a complexa política interna do reino de Sabure, seus crimes durante a primeira guerra mundial, sua relação com a escravidão e o colonialismo, a fraqueza e a podridão de sua monarquia, bem como a disputa entre a Academia de Ciências e o Ministério do Ocultismo pelo domínio no país. Além disso, conhecemos um pouco mais do passado dramático de Victórica, e vemos o desenvolvimento de sua relação com Kujo. A trama envolvendo o Ministério do Ocultismo é interessantíssima: o Marquês de Blois está absolutamente consciente das limitações - ou antes da farsa de tais práticas - todavia como bom ilusionista, sabe aproveitar-se de tais truques e ressignificá-los para conseguir seus intentos.

Há alguns elementos católicos no anime, mas seu propósito é meramente estético. Há belas igrejas, vitrais maravilhosos e um caso ambientado em um convento e incluso citações da escritura, todavia ali não se encontra nenhum católico autêntico. Os padres e freiras que ali aparecem estão envolvidos na trama do ministério do ocultismo, e não estão muito interessados na sã doutrina.

Falando em padres, durante o século XVIII ou XIX - a data realmente não importa - houve certa polêmica na Europa. Os padres franceses não gostavam muito que suas fiéis andassem por aí lendo romances, não tanto pela presença de cenas (se é que se pode usar esse vocábulo para livros sem gravuras) lascivas, mas pela idealização do amor. Os personagens do romance eram tão puros e heroicos, e os homens que elas encontravam pareciam tão sem graça ante tais vultos. As mocinhas da época acreditavam que isso era um problema particular delas, de forma que frustradas, iam procurar o amor em outra freguesia, não raro sendo iludidas e usadas por bons "atores" no jogo do amor, isso quando não caiam no adultério após a decepção com o casamento. Mas, que tem isso haver com o anime? Bem, a relação entre Kujo e Victorica é tão bela e intensa de forma que não se encontrará análogos neste mundo (ainda mais em uma era de degeneração como a nossa). Apesar de bela, Victorica é uma dona muito... chata. A convivência com ela seria impossível, todavia Kujo - que é um dos maiores betas da história dos animes - a suporta e a vence pela bondade, ensinando-a a amar. E quando a segunda tempestade - isto é, a segunda guerra mundial - desponta no horizonte e estes são separados, o amor é tão intenso que eles movem céus e terra para se reencontrarem e ficaram juntos novamente. Lindo, não? Mas uma experiência sem ecos na realidade contemporânea. Mulher alguma se encantaria pela postura inocente de Kujo, que fosse emulada no mundo real teria consequências nada agradáveis a seu usuário. Igualmente são poucas as moças - sobretudo hoje - que se manteriam fieis por tanto tempo em um cenário de guerra, sabemos pela história quão facilmente o soldado é esquecido, e as donas encontram facilmente um novo amor, isto quando este não vem das fileiras inimigas... Se em situações tanto menos dramáticas os relacionamentos já se rompem, quiçá numa guerra mundial. Há ainda outro aspecto belo do relacionamento entre os dois, apartada de seu amado, Victórica fica tão nervosa e apreensiva que acaba por desenvolver a Síndrome de Maria Antonietta, que para poupar o trabalho do leitor consiste no embranquecimento dos cabelos devido a uma situação de estresse intensa, assim os lindos cabelos loiros da moça adquirem uma coloração prateada. Sublime! Pergunto-lhe, caro leitor. alguma mulher experimentaria tal intensidade de sentimento pela sua ausência? Provavelmente não, como as coisas estão hoje em dia, se a dona chegar a chorar por você, dê-se por privilegiado. Triste.  Mas de que importa? De todo modo esse tipo de ficção é útil para mortificar nosso orgulho, lembrar da mediocridade de nossa existência e do sublime que pode ser vislumbrado na ideia.

Encerro esse texto justamente com o [primeiro] encerramento do anime: Resuscitated Hope.

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