sábado, 14 de maio de 2022

O Último Chá de Rikyu - Kakuzo Okakura

Somente aquele que viveu com o belo pode morrer belamente. Os últimos momentos dos grandes mestres do chá foram repletos de apurada elegância, tanto quanto foram suas vidas. Ao procurar sempre se harmonizar com o grandioso ritmo do universo, estavam sempre prontos a penetrar o desconhecido. O “Último Chá de Rikyu” se destacará para sempre como expressão máxima da grandeza trágica.

Longa vinha sendo a amizade entre Rikyu e o xogum Hideyoshi, o Taiko, e alta a consideração que o grande guerreiro tinha pelo mestre do chá. Mas a amizade de um déspota é sempre uma honraria perigosa. Eram tempos em que traições abundavam e os homens não contavam nem em seus parentes mais próximos. Rikyu de modo algum era um cortesão servil, e ousou diferir com frequência do raciocínio de seu feroz patrão. Aproveitando-se de certa frieza que existiu durante algum tempo entre Taiko e Rikyu, os inimigos deste acusaram-no de estar envolvido numa conspiração para envenenar o déspota. Segredaram a Hideyoshi que a poção fatal lhe seria administrada numa xícara da bebida verde preparada pelo mestre do chá. Para Hideyoshi, uma suspeita era motivo suficiente para execução instantânea, e não houve meio de demover o raivoso xogum de sua decisão. Um único privilégio foi garantido ao condenado — a honra de morrer por suas próprias mãos

No dia destinado à autoimolação, Rikyu convidou seus principais discípulos para uma última cerimônia do chá. Pesarosos, os convivas se encontram no alpendre no horário combinado. Ao contemplar a aleia do jardim, parece-lhes que as árvores estremecem, e que fantasmas sem lar sussurram no farfalhar das folhas. As lanternas de pedra cinzenta postam-se solenes como sentinelas diante dos portões de Hades. Um sopro de raro incenso provém do aposento do chá; é o sinal que convoca os convivas, o pedido para que entrem. Um a um, eles avançam e tomam seus lugares. No nicho tokonoma pende um kakemono — maravilhosa caligrafia de um monge da Antiguidade que fala da impermanência de todas as coisas terrenas. O canto da chaleira que ferve sobre o braseiro lembra uma cigarra extravasando sua tristeza pelo verão que se vai. Logo, os convivas entram no aposento. Um a um, o chá é servido a todos, e cada um esgota a xícara em silêncio, o anfitrião por último. De acordo com a etiqueta, o conviva principal pede então permissão para examinar o equipamento do chá. Rikyu expõe os vários artigos diante deles, assim como o kakemono. Após todos expressarem admiração pela beleza dos objetos, Rikyu os dá como lembrança, um para cada um dos amigos ali reunidos. Só a tigela ele guarda para si. “Que esta xícara, conspurcada pelos lábios do infortúnio, nunca mais seja usada por um homem.” Assim dizendo, despedaça a vasilha.

A cerimônia termina; os convivas, a custo contendo as lágrimas, despedem-se pela última vez e deixam o aposento. Um único, o mais próximo e o mais querido, é solicitado a permanecer e a testemunhar o fim. Rikyu então despe a bata cerimonial, dobra-a com cuidado sobre o tatame e assim revela a mortalha imaculadamente branca que até então ocultava sob a roupa. Contempla com ternura a lâmina brilhante da adaga mortal, e a ela se dirige nestes requintados versos:

Eu vos saúdo,
Ó espada da eternidade!
Através de Buda,
E também de Dharma,
Vosso caminho abris.

Com um sorriso estampado no rosto, Rikyu seguiu rumo ao desconhecido.

- Kakuzo Okakura; O livro do Chá; p.66-68.

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